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CADU XAVIER E O DESAFIO DE TIRAR O RN DA ESTAGNAÇÃO - POR *RICARDO SOBRAL
CADU XAVIER E O DESAFIO DE TIRAR O RN DA ESTAGNAÇÃO
Artigo.
Por *Ricardo Sobral, advogado.
O novo governador terá de escolher entre a acomodação política e uma agenda corajosa de responsabilidade fiscal, modernização administrativa e desenvolvimento econômico.
Sua eleição abre um novo capítulo na política potiguar. Assumirá com uma missão que ultrapassa a administração ordinária do estado: recuperar a capacidade financeira do governo, restabelecer a confiança da sociedade e criar condições para que o Rio Grande do Norte volte a crescer.
Não é tarefa fácil, desprovida de complexidade. O estado padece de dificuldades fiscais que se refletem diretamente na vida dos servidores públicos, dos fornecedores, dos empresários e, sobretudo, da população que depende dos serviços estaduais.
O déficit previdenciário passa de R$ 200 milhões mensais, segundo números apresentados pelo próprio governador eleito. A folha de pagamento vem sendo quitada com escalonamentos, ultrapassando o mês de competência. Os valores descontados dos contracheques dos servidores para pagamento de empréstimos consignados não vêm sendo integralmente repassados às instituições financeiras. Em março de 2026, o governo reconheceu perante a Assembleia Legislativa um passivo de R$ 363,3 milhões em consignações, acumulado entre maio de 2023 e março de 2026.
A esse cenário somam-se os atrasos nos pagamentos de fornecedores e prestadores de serviços, além das deficiências que atingem áreas essenciais, como saúde, segurança e infraestrutura. Quando o Estado atrasa seus compromissos, o problema não fica restrito aos balanços contábeis. Empresas deixam de receber, trabalhadores ficam expostos a dificuldades financeiras e serviços públicos perdem qualidade. Não há política pública sustentável quando a administração não consegue honrar regularmente suas obrigações mais elementares. O primeiro desafio, pois, é colocar a casa em ordem.
O governador tem uma vantagem e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade adicional: conhece profundamente a máquina fazendária estadual. Foi secretário da Fazenda e presidiu o Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal. Portanto, não poderá alegar desconhecimento das dificuldades fiscais que encontrará. É indispensável conhecer o tamanho real do endividamento, os compromissos vencidos, as despesas contratadas, a disponibilidade de caixa, a situação previdenciária e as obrigações financeiras que não aparecem imediatamente na execução orçamentária.
A proposta de discutir uma participação maior dos Poderes na contribuição patronal pode integrar a solução, mas não substitui um estudo atuarial consistente, medidas de gestão e um planejamento previdenciário de longo prazo.
O novo governo deverá apresentar um cronograma público de quitação desse passivo e assegurar que os descontos futuros sejam transferidos pontualmente. A regularidade da folha salarial e o pagamento dos fornecedores precisam deixar de ser metas ocasionais e voltar a ser obrigações ordinárias da administração. O governador eleito já se apresentou como desenvolvimentista e defendeu a necessidade de fazer a receita crescer em ritmo superior ao das despesas, sem recorrer necessariamente ao aumento de impostos. É uma diretriz correta. Mas o discurso precisará se transformar em decisões concretas.
O RN possui vantagens competitivas importantes: potencial energético, especialmente nas fontes eólica e solar; localização geográfica estratégica; atividade turística; produção agropecuária; recursos minerais; infraestrutura portuária e oportunidades relacionadas à economia do mar. Entretanto, essas potencialidades ainda não se traduzem, na dimensão desejada, em desenvolvimento econômico, industrialização, empregos qualificados e aumento sustentável da renda da população.
Para mudar essa realidade, o estado precisa abandonar a postura predominantemente arrecadatória e assumir uma posição de indutor do desenvolvimento. Isso significa reduzir a burocracia, acelerar o licenciamento ambiental sem comprometer a proteção dos recursos naturais, oferecer segurança jurídica, modernizar a infraestrutura e estabelecer uma política de atração de investimentos privados.
É necessário rever a qualidade dos gastos públicos. Não basta arrecadar mais: é preciso gastar melhor. Despesas administrativas improdutivas, estruturas excessivamente burocráticas e programas sem avaliação de resultados precisam ser revistos. Cada real do contribuinte deve produzir algum benefício efetivo para a sociedade. O desenvolvimento não nasce da expansão ilimitada da máquina pública, mas da combinação entre equilíbrio fiscal, investimentos, produtividade, iniciativa privada e políticas sociais eficientes.
O PT será um obstáculo à mudança? Aqui está uma das questões políticas mais relevantes do futuro governo. Historicamente, o Partido dos Trabalhadores tem sido associado a uma concepção de Estado mais intervencionista, à ampliação de despesas públicas e à utilização do orçamento como instrumento de expansão de políticas sociais. Essas características não significam, por si só, toda administração petista seja necessariamente irresponsável do ponto de vista fiscal. Entretanto, tornam legítimo questionar se a cultura política do partido será compatível com o rigor financeiro de que o RN necessita.
Carlos Eduardo Xavier, o Cadu, terá de demonstrar que sua condição de desenvolvimentista não é apenas uma expressão utilizada durante a campanha. Precisará ter independência administrativa para contrariar interesses partidários, rever prioridades e dizer não às despesas que não encontrem respaldo na realidade financeira do Estado. O PT poderá ser um entrave se a fidelidade às conveniências políticas prevalecer sobre a responsabilidade administrativa. Poderá, entretanto, ser parte da solução se compreender que a manutenção de políticas sociais depende de uma economia forte e de contas públicas equilibradas.
O governador não pode governar refém de compromissos partidários, de grupos políticos ou de interesses corporativos. Sua obrigação será com o conjunto da população potiguar. Os primeiros cem dias serão decisivos. As primeiras decisões do novo governo deverão sinalizar o rumo de sua administração.
Pelo discurso pós eleição, é razoável se esperar como primeira medida de impacto, um novo pacto institucional com a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público, o Tribunal de Contas, os municípios e o setor produtivo. A crise fiscal não será superada por medidas isoladas, tampouco por disputas políticas. O RN não precisa apenas de um governo que arrecade e pague suas contas. Precisa de um governo que planeje, invista, estimule a atividade econômica e prepare o estado para o futuro.
Dir-se-á que o governador eleito recebeu das urnas uma oportunidade e uma responsabilidade. Conhece a Fazenda estadual, conhece os números e participou diretamente da administração que agora terá de suceder. Sua experiência poderá ser um diferencial, desde que tenha determinação para reconhecer os problemas e disposição para enfrentá-los.
A população certamente não espera milagres. Espera salários em dia, serviços públicos que funcionem, respeito aos compromissos assumidos, oportunidades de trabalho e um ambiente favorável ao crescimento econômico. O novo governador terá de escolher entre administrar as dificuldades ou transformar a realidade. Entre preservar a acomodação política ou promover as mudanças necessárias. Entre manter o Estado prisioneiro de suas despesas ou recuperar sua capacidade de construir o desenvolvimento. É a hora de transformar o discurso desenvolvimentista em resultados concretos.
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Janeiro de 2027 marca o fim de 60 anos de hegemonia das oligarquias no Rio Grande do Norte.
Pela primeira vez em mais de seis décadas, o tabuleiro político potiguar vira a página sem nenhum representante das famílias Alves ou Maia no exercício de mandatos eletivos, redesenhando o mapa do poder no estado.
O calendário político do Rio Grande do Norte registra um marco histórico: a partir de janeiro de 2027, encerrar-se-á oficialmente um ciclo que moldou os destinos do estado por mais de 60 anos. Os grupos políticos tradicionais, que durante décadas se revezaram no poder entre disputas ferrenhas e alianças pragmáticas, assistem ao seu ocaso definitivo nas urnas. O sobrenome como passaporte eleitoral perdeu a validade.
O desmonte das antigas estruturas não aconteceu da noite para o dia, mas teve em 2022 o seu primeiro grande abalo sísmico e, nas eleições de 2026, o seu golpe de misericórdia.
Pelo lado dos Maia, José Agripino personificou a longevidade de uma era. Embora tenha nascido politicamente "biônico" — nomeado prefeito de Natal durante o regime militar —, construiu uma trajetória robusta no voto direto: foi duas vezes governador do Estado e exerceu mandatos consecutivos no Senado da República. Contudo, já em 2022, sentiu o peso dos novos tempos ao amargar a derrota na disputa por uma cadeira de deputado federal, recolhendo-se aos bastidores partidários.
O naufrágio do "Aluizismo" e o encolhimento do MDB
Se os Maia saíram de cena, o clã Alves enfrentou um desfecho ainda mais dramático. Henrique Eduardo Alves, figura central de Brasília, ex-ministro de Estado e ex-presidente da Câmara dos Deputados, viu seus 11 mandatos consecutivos evaporarem no pleito de 2022, quando obteve pouco mais de 11 mil votos para deputado federal — um epílogo melancólico para quem já carregava no currículo duas derrotas históricas para a Prefeitura de Natal.
O mesmo vento varreu Garibaldi Alves Filho. Herdeiro direto do carisma do "aluizismo", duas vezes governador, senador e ex-presidente do Congresso Nacional, Garibaldi também ficou pelo caminho ao tentar uma vaga na Câmara Federal em 2022. A esperança de sobrevida da família repousava sobre seu filho, o atual vice-governador Walter Alves.
No entanto, as urnas de 2026 foram implacáveis: Walter sofreu uma derrota humilhante na tentativa de retornar à Assembleia Legislativa como deputado estadual. Com ele, afundou a legenda que outrora ditava as regras do jogo. O velho MDB de tantas guerras — partido que resistiu à ditadura de 1964 e foi a espinha dorsal da política potiguar — minguou a ponto de conquistar apenas uma das 24 cadeiras do Legislativo estadual.
Ainda mais emblemática é a situação de Carlos Eduardo Alves. Órfão político das lideranças de Agnelo Alves e Wilma de Faria, o ex-prefeito da capital sequer conseguiu reunir condições políticas e partidárias para entrar em campo em 2026. Entre anúncios precipitados e desistências atabalhoadas para diferentes cargos, virou refém da própria indecisão. O impiedoso folclore político potiguar tratou de batizá-lo com a alcunha de "Carlos Quatro Quedas", em referência à sequência de quatro reveses eleitorais consecutivos que o empurraram para fora do jogo.
O inverno dos Rosado e o drama dos satélites
No Oeste potiguar, a tradicional oligarquia Rosado também enfrenta seu deserto de mandatos. A ex-governadora e ex-prefeita de Mossoró, Rosalba Ciarlini, hiberna em um profundo ostracismo político; em 2026, não reuniu forças sequer para colocar o pescoço fora do casco e testar seu nome.
O único suspiro do clã veio com Larissa Rosado, que, curiosamente, havia perdido a última eleição para vereadora em sua terra natal, Mossoró, mas acabou alçada ao posto de vice-governadora na chapa vitoriosa deste ano. Nos bastidores, porém, a leitura é fria: trata-se de um fôlego curto. A tendência é que seja rapidamente escanteada na estrutura de governo, afinal, como diz a velha máxima repetida nos corredores políticos, "o PT é como pé de mangueira: nada floresce debaixo de sua sombra".
O crepúsculo das velhas raposas arrastou consigo figuras que gravitaram em torno desses grupos por décadas. O ex-governador Robinson Faria despede-se da vida pública após uma carreira que incluiu a presidência da Assembleia, a Câmara Federal e o Executivo estadual. Sua derrota em 2026 teve contornos de tragédia grega: perdeu a eleição por míseros 32 votos. Nos bastidores, Robinson atribui o revés de forma raivosa à traição de seu antigo pupilo predileto, o ex-prefeito de Ceará-Mirim, Júlio César.
Ao lado de Robinson, dezenas de outros políticos "satélites" das antigas oligarquias dão adeus à cena pública — alguns aposentados compulsoriamente pelo voto popular, outros que sequer desembainharam suas espadas, preferindo a desistência prévia à humilhação das urnas.
O mar revolto do novo ciclo
A sabedoria popular do sertão e do agreste costuma ser certeira ao resumir a essência do poder: voto é como santidade, só se acredita na metade da metade; e político é como remédio de prateleira, todo ele tem prazo de validade.
Para a velha guarda do Rio Grande do Norte, o prazo venceu em definitivo. Fecha-se um ciclo secular e abre-se uma página em branco a partir de 2027. Contudo, a queda dos antigos titãs não significa calmaria para os novos ocupantes do poder.
Resta saber quem, dentre os que chegam agora impulsionados pela renovação, terá fôlego para sobreviver no mar revolto da política contemporânea — um oceano cheio de monstros devoradores, onde a fidelidade eleitoral não cria raízes, o ambiente não plasma estabilidade e a única certeza absoluta continua sendo o imponderável.
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