Abandono ameaça Casa Grande do Engenho Guaporé em Ceará-Mirim
Quem chega ou sai de Ceará-Mirim pela RN-064 encontra, em meio ao verde do campo, um prédio que parece resistir sozinho ao tempo. Protegido por uma cerca, um caminho de pedras conduz até o casarão, que por vezes passa despercebido entre mangueiras e coqueiros. As palmeiras imperiais que acompanham a entrada também dão sinais do desgaste, como se compartilhassem com a construção os efeitos dos anos. O mato toma conta do entorno. Animais soltos no pasto ajudam a conter parte da vegetação, mas não escondem o abandono.
Construída em meados da segunda metade do século XIX, a Casa Grande do Engenho Guaporé é um bem tombado pelo Governo do Estado desde 1988, por recomendação do Conselho Estadual de Cultura. A origem do imóvel está ligada ao período em que Ceará-Mirim se consolidou como um dos principais centros da produção açucareira potiguar e pertenceu ao barão de Ceará-Mirim, Manuel Varela do Nascimento.
Dentro da casa, fezes de animais, terra, lixo e restos de árvores espalhados pelo chão compõem o cenário. Ninhos de vespas ocupam os cômodos, enquanto morcegos encontram abrigo onde um dia circularam visitantes interessados em conhecer a história de Ceará-Mirim. Em uma das paredes, a frase “preserve a cultura. Não destrua sua história” aparece como uma espécie de grito em defesa do que o lugar já representou.
O apelo se repete em outros cômodos e contrasta com a situação atual do casarão. Objetos de barro, pratos, panelas e bandejas com velas coloridas podem ser vistos diante de uma parede com a representação de pessoas escravizadas sendo açoitadas. Aparentemente foram objetos levados posteriormente para o local para algum ritual religioso.
Portas e janelas já não existem. Vigas estão expostas nas paredes que ainda resistem à ação do tempo, mesmo com rachaduras, infiltrações e sinais de deterioração. Nelas ainda sobrevivem pinturas que retratam manifestações populares como o boi de reis e cenas do cotidiano dos tempos de maior força da atividade açucareira de Ceará-Mirim.
Apesar das marcas do abandono, a casa ainda guarda uma beleza difícil de apagar. O vento atravessa os espaços abertos, o campo se estende ao redor e, da área externa, é possível imaginar como seria contemplar o vale ao entardecer a partir da varanda de uma construção que carrega parte da memória da cidade e do próprio Rio Grande do Norte.
“O prédio, por si só, é um rebusque do que foi a história do Baronato de Ceará-Mirim”, define o guia de turismo Francisco Ferreira, conhecido como Barão de Ceará-Mirim. Segundo ele, a casa foi construída por Manuel Varela para servir como residência de campo e, posteriormente, tornou-se parte da história da família Pereira Varela. Depois, teria sido entregue como dote para o casamento de Isabel Varela com o segundo médico potiguar formado, Vicente Inácio Pereira.
A construção também esteve ligada a personagens que tiveram influência na vida política e cultural do Estado. Vicente Pereira exerceu cargos públicos e chegou ao governo do Rio Grande do Norte. O próprio Manuel Varela recebeu de Dom Pedro II o título de barão, tornando-se, segundo Francisco, o primeiro nobre do Estado.
Segundo a Fundação José Augusto, o imóvel foi cedido ao Estado em regime de comodato em 1977, por 99 anos. Um ano depois foi instalado lá o Museu Nilo Pereira. O município passou a ser administrador entre os anos de 1994 e 2010. Contudo, a partir de 2011, a administração voltou a ser da FJA.
De Casa Grande a Museu
A história da Casa Grande do Engenho Guaporé se confunde com a própria formação de Ceará-Mirim durante o período de expansão da cultura da cana-de-açúcar. O município chegou a reunir dezenas de engenhos, que ajudaram a moldar a economia, a política e a vida social da região.
Para Francisco Ferreira, o casarão tem importância justamente por permitir uma conexão física com um período que deixou marcas profundas na cidade. “Uma cidade que teve 220 engenhos, e hoje nenhum desses engenhos são tombados”, afirma.
O casarão esteve ligado posteriormente ao escritor Nilo Pereira, nome que batizou o museu instalado no local a partir de 1978, transformando-se em espaço de preservação da memória e reunindo documentos, mobiliário, objetos e obras relacionadas à história de Ceará-Mirim e ao período dos engenhos. A Casa Grande abrigava, além do museu, uma sala do artista. Lá havia obras doadas por artistas do município.
Francisco lembra que a transformação ocorreu depois de um período anterior de abandono. “Aquele prédio estava nas ruínas, tão como ele está hoje. Então, quando Geraldo Melo assumiu o cargo de vice-governador, ele doa o prédio ao Estado em comodato.”
Com a implantação do museu, a casa ganhou outra vida. “A Fundação José Augusto faz toda a estruturação e faz com que a casa que antes era abandonada passasse a ser a morada, literalmente, da cultura da cidade de Ceará-Mirim”, relata.
O museu, porém, seria desativado anos depois. “Parte da mobília foi direcionada para a Pinacoteca do Estado. E a parte de utensílios, como a espada do general João Varela, utensílios menores, prataria, essas outras coisas, isso tudo foi saqueado”, conta o guia. Com o fechamento, o prédio perdeu sua função cultural e voltou a enfrentar a deterioração.
Ação pede preservação do prédio tombado
O ativista cultural e morador de Ceará-Mirim Gláucio Tavares viveu parte dessa história como visitante. “Eu tenho 50 anos, então na minha infância, esse museu era ativo, eu visitei o museu, eu tinha uma admiração pela arquitetura”, conta. Segundo Gláucio, quatro famílias chegaram a ocupar o imóvel, antes de serem retiradas. “Aí os saqueadores começaram a levar porta, janela, as coisas, saqueando.”
No entanto, o estado atual do casarão o levou a ingressar com uma ação popular em 4 de abril de 2022 contra o Estado e a Fundação José Augusto. A iniciativa busca medidas para preservar o imóvel e recuperar sua função cultural. Na ação, foram solicitadas medidas emergenciais para impedir que a degradação continuasse. “Pedi, liminarmente, que fosse preferido que limpassem o prédio, que colocassem uma cobertura provisória e, para evitar que o prédio continuasse sendo saqueado e ficasse mais deteriorado”, relata.
Segundo Gláucio, a decisão judicial determinou as providências, mas não teria sido cumprida. Ele afirma que foi estabelecida multa diária de R$ 1 mil. O processo voltou a avançar neste ano. Em 27 de abril, conforme o relato do ativista, foi determinada uma audiência de conciliação, realizada em 11 de agosto passado. Na ocasião, o Estado teria solicitado uma perícia. “Por conta da prerrogativa de supervisionar o patrimônio tombado, a FJA se comprometeu a realizar a visita técnica e entregar o parecer até o dia 30 de setembro”, informou a Fundação.
A situação também envolve a propriedade do imóvel. A FJA esclarece que “o imóvel não pertence à Fundação José Augusto, tendo sido cedido em regime de comodato em 1977, por 99 anos, prazo que iria se consumar no ano de 2076” e informa que “o prédio foi vendido ao senhor Manuel Dias Branco Neto, ou pelo grupo o qual ele representa, conforme Processo Judicial (...) de modo que o acordo de comodato perdeu a vigência.”
O grupo M. Dias Branco, proprietário do imóvel, foi procurado para falar sobre o assunto, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.




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