O triste fim dos papangus
Foi nos becos da Redinha, humildes e sem nome, que vi passar os últimos papangus. Eram personagens líricos, como os papangus da minha infância. Andavam só com os olhos do lado de fora, como se perscrutassem a vida simples dos moradores de lá. Feios, mas de uma feiura ingênua e doce que parecia guardar uma tristeza prisioneira do silêncio. Escondida neles mesmos, e que seguiam seus passos pelas ruas pobres da vila, eles sozinhos, sem palavras e sem gestos, numa alegoria de espantos.
Nas tardes de carnaval, e para que a vida não fosse monótona diante da canção triste do mar, desfilava sempre uma tribo de índios. Bastava um pequeno ajuntado para vê-los passar, e o cacique, chefe de todos, avisava que era hora de matar o caçador. Com macacão surrado, chapéu imitando aqueles dos filmes de Tarzan, com sua espingarda feita de madeira e que ele apontava para os índios numa resistência inútil para cair, sem vida, no chão da rua, sob o olhar de compaixão de todos nós.
Sempre achei que os meninos eram sinceros e sentiam pena do caçador. Uma tristeza parecida com a saudade do cronista. Mas, a minha era uma saudade velha que vinha da infância, quando o caçador, crivado de flechadas, caía manchado de sangue no peito, bem do lado do coração. Então era justo negar a tristeza diante da morte do caçador, naquela hora trágica? Bastaria um olhar para notar que tudo não passava de um faz-de-conta, mas, e a alegria, quando o feiticeiro ressuscitava o caçador?
Dizem que são falsas as tribos de índio do carnaval. Nem tanto. A própria vida é assim, entre o real e o irreal. A realidade cansa. O que tem de falso e errado um feiticeiro soprar aquela fumaça de suas ervas mágicas para fazer o caçador voltar a viver? Quem não morre e não ressuscita todos os dias, entre as tristezas e as alegrias da vida? Quem, nesse mundo de Deus e dos feiticeiros que andam por aí, não se deixa encantar com as magias que fogem do mundo real e assaltam nossas certezas?
E depois – notaram que nas crônicas tristes tem sempre um depois? – nunca esqueci da cena que vi naquela tarde que os parnasianos diriam fagueiras, numa ruazinha pobre da Redinha. Depois de ressuscitar, a tribo retomou sua caminhada, mas o caçador, cansado de morrer tantas vezes numa única tarde, largou o corpo no batente de uma casa. Acendeu um cigarro, puxou um trago comprido, e ficou ali. O olhar era vago, como se procurasse a vida, se ainda seria preciso morrer várias vezes.
Hoje, e tristemente, o populismo matou o carnaval de rua que era lírico e humano. A força do poder público substituiu a festa pagã e docemente pecadora pelo espetáculo. Nem tem consciência de que o lazer pressupõe presença ativa, a participação coletiva, anônima e popular. O show substituiu o lazer como algo contemplativo, um entretenimento. Nem notam que a multidão pertence ao artista e não a quem lhe paga para cantar. O carnaval, na sua beleza profana, hoje é uma coisa de safadões…
PALCO
SACADA – O advogado Ricardo Sobral, numa sacada de quem conhece o chão da política, sugere Henrique Alves para governar o Estado nos nove meses na renúncia da governadora Fátima Bezerra.
SAÍDA – Na sua visão, Henrique exerceu dez mandatos, presidiu a Câmara Federal e circula bem nos corredores de Brasília. Governaria equidistante da luta eleitoral e só comprometido com a sociedade.
DURO – O empresário Jean-Paul Prates foi duro nas críticas diretas ao ex-prefeito Álvaro dias quando qualifica de baixa qualidade a gestão na Prefeitura. Quem declara assim tem uma estratégia definida.
MESA – Será lançada, no Instituto Histórico, na Quinta Cultural do dia 19 de março, às 17h, a nova edição do livro de Adriana Lucena, ‘No Rastro dos Vaqueiros’. A primeira esgotou no lançamento.
GALO – Este ano, em Recife, o Galo da Madrugada é o Galo Fraterno. Homenagem a Dom Hélder Câmara, quatro vezes cotado para receber o Prêmio Nobel da Paz. E aqui, se faz o carnaval safadão.
FREVO – Para o amigo Rochinha que na certidão de nascimento é Joao Mendes da Rocha: espero que a tristeza do frevo erre de destino e se embriague nas cores da sobrinha lá nos becos de Olinda.
POESIA – De Manuel Bandeira, o grande triste, cantemos: “Eu faço versos como quem chora / De desalento… de desencanto…/ Fecha meu livro, / se por agora / Não tens motivo nenhum de pranto”.
FESTA – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando o brilho do reflexo do glitter caído no chão do beco: “O carnaval é uma festa da carne. Deixemos em casa as coisas do espírito”.
CAMARIM
DIÁLOGO – De François Silvestre, nas redes: “Tenho amigos e parentes de Direita. Parentesco e amizade continuam. Mas, se algum for candidato, votarei no inimigo de Esquerda”. De Ivan Maciel, certeiro, por cobertura, no canto do gol: “Também. Acima de qualquer dúvida”. O resto é carnaval…
LUTA – O cronista veste-se da banalidade e avisa: é imperdível a biografia de Ricardo Cota sobre a vida de Niomar Muniz Sodré Bittencourt. Aquela que enfrentou a ditadura, fechou o jornal ‘Correio da Manhã’ e lutou pela liberdade de expressão. Presa, resistiu sem rendição. O resto é carnaval…
CONSELHO – Do Abade L. Grimes, no seu velhíssimo ‘Instruções para esclarecer, dirigir, consolar e curar pessoas escrupulosas’, citando o Padre Quadrupani, nas instruções para a vida: “O escrupuloso só vê uma série de pecados em todas as suas ações, e, em Deus, a vingança”. O resto é carnaval…
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TN

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