GALERIA HISTÓRICA
A SANTA CRUZ DE RIO DOS ÍNDIOS:
MEMÓRIA, FÉ E RESISTÊNCIA NO VALE DO CEARÁ-MIRIM (RN)
Texto: Gerinaldo Moura da Silva
Fotos: Cedidas ao autor
A Santa Cruz de Rio dos Índios está localizada na zona rural do município de Ceará-Mirim/RN, em terras da antiga Fazenda Palmeiras, enquanto marco histórico, religioso e antropológico. Partindo de registros históricos, relatos orais e memórias de moradores da região, a construção destaca o papel simbólico dos cruzeiros na formação do território brasileiro, a centralidade da religiosidade popular na vida comunitária do Baixo Vale do Ceará-Mirim e o significado atribuído à permanência milagrosa do Cruzeiro após a tragédia ambiental provocada pelas chuvas torrenciais de 29 de julho de 1998, que destruiu a comunidade de Rio dos Índios de Baixo.
Desde o período colonial, a presença de símbolos cristãos no território brasileiro desempenhou papel fundamental na organização do espaço, na catequese e na consolidação das primeiras povoações. Os cruzeiros, em especial, funcionaram como marcos de fé, orientação territorial e sociabilidade religiosa. No município de Ceará-Mirim/RN, tais símbolos acompanham a própria gênese da cidade e de suas comunidades rurais. Neste contexto, a Santa Cruz de Rio dos Índios destaca-se como um patrimônio imaterial e material de profunda relevância histórica e simbólica. Para além de sua função devocional, o Cruzeiro tornou-se signo de resistência e esperança, sobretudo após sobreviver, de forma considerada milagrosa pela população local, à catástrofe natural que destruiu completamente a antiga comunidade de Rio dos Índios de Baixo, no final da década de 1990.
A colonização portuguesa do Brasil ocorreu sob estreita relação entre a Coroa e a Igreja Católica. Nos navios que aqui aportavam, além de militares e colonos, vinham missionários, especialmente jesuítas, cuja missão era expandir a fé cristã, catequizar os povos originários e consolidar o catolicismo frente ao avanço do protestantismo. Como consequência, símbolos religiosos passaram a marcar caminhos, encruzilhadas, limites territoriais e núcleos de povoamento. Os cruzeiros, erguidos em pontos estratégicos, sinalizavam não apenas a presença da fé cristã, mas também a intenção de fundar vilas, organizar o espaço e sacralizar a paisagem. Muitas cidades brasileiras tiveram sua origem associada a esses marcos simbólicos, que antecederam a construção de capelas e igrejas matrizes e santuários.
Em Ceará-Mirim, há registros históricos da existência de um cruzeiro na antiga povoação de Boca da Mata, próximo ao Engenho Porão e aos trilhos da Rede Ferroviária. Segundo Queiroz (1993), esse local correspondia ao cruzamento das principais estradas que ligavam Natal, Extremoz, Jacoca e o Sertão, configurando-se como ponto inicial da povoação que deu origem à cidade. A chamada Santa Cruz, erguida em 1850, tornou-se referência religiosa e espacial. Posteriormente, foi transferida para a praça em frente à Igreja Matriz, em 1880, onde passou a ser celebrada anualmente a Festa da Santa Cruz, no dia 3 de maio. Com o falecimento de Miguel Gato, responsável pela organização da festividade, o monumento entrou em processo de abandono, sendo posteriormente realocado, em 1935, para a Rua Francisco Sobral, que passou a ser conhecida como Rua da Cruz. Em 1993, o monumento foi oficialmente tombado como patrimônio histórico municipal. Através de um Decreto da então Prefeita Therezinha Mello. Além desse marco, existem outros cruzeiros na zona urbana de Ceará-Mirim, evidenciando a permanência da religiosidade popular como elemento estruturante da identidade local.
Diferentemente dos cruzeiros urbanos, a Santa Cruz de Rio dos Índios, também conhecida como Santa Cruz de Palmeiras, não possui data precisa de construção. Relatos orais indicam tratar-se de uma obra centenária, situada a aproximadamente 12 quilômetros da sede municipal, em área rural marcada pela agricultura e pela vida comunitária tradicional. Segundo Câmara (2017), o espaço da Santa Cruz consistia em uma pequena edificação aberta, acessível a qualquer hora, onde fiéis realizavam promessas, orações e agradecimentos. No interior, um altar simples abrigava uma cruz de madeira e imagens de Nossa Senhora da Conceição. Ao redor, funcionava um cemitério informal, onde eram sepultadas crianças da localidade, revelando práticas religiosas e funerárias próprias das comunidades rurais.
A Santa Cruz era cuidada por Isabel Gomes, conhecida como Dona Bebé Gomes, rezadeira e parteira, figura central da religiosidade local. Durante o mês de maio, comunidades de Palmeiras e Rio dos Índios reuniam-se para a reza da novena e realizavam procissões noturnas, iluminadas por velas envoltas em papel celofane colorido, expressando uma fé profundamente sensível e estética. O Cruzeiro de Rio dos Índios desempenhou papel fundamental na evangelização do Baixo Vale do Ceará-Mirim. Missas, catequeses e terços eram frequentemente celebrados no local, muitos deles presididos pelo Cônego e posteriormente Monsenhor Ruy Miranda. Durante o mês de maio, dedicado à Imaculada Conceição, a Santa Cruz tornava-se centro de intensa vivência religiosa. Durante o novenário festivo na Igreja Matriz de Ceará-Mirim, uma das missas era celebrada no Cruzeiro, ocasião em que dezenas de crianças eram batizadas, transformando o evento em verdadeira festa comunitária. Os relatos de Darquinha Arruda revelam a dimensão afetiva e social dessas celebrações, nas quais a fé se entrelaçava com os laços familiares e comunitários.
A memória da Santa Cruz de Rio dos Índios está indissociavelmente ligada à tragédia ocorrida em 29 de julho de 1998, período em que Ceará-Mirim celebrava seus 140 anos de emancipação política. Chuvas intensas e contínuas provocaram deslizamentos de terra nas localidades de Palmeiras e Rio dos Índios, soterrando completamente a comunidade de Rio dos Índios de Baixo. Casas foram destruídas, famílias perderam bens materiais e vidas humanas foram ceifadas. O cenário ao amanhecer era de absoluta desolação. Contudo, em meio aos escombros, a Santa Cruz permaneceu intacta. Para a população local, esse fato foi imediatamente interpretado como milagre e sinal da proteção de Nossa Senhora da Conceição. O testemunho de Darquinha Arruda expressa a dor da perda e, ao mesmo tempo, a força simbólica da permanência do Cruzeiro, que passou a representar não apenas a fé, mas a própria sobrevivência da memória coletiva da comunidade soterrada.
A Santa Cruz de Rio dos Índios constitui-se como um poderoso símbolo de fé, memória e resistência no Vale do Ceará-Mirim. Mais do que um monumento religioso, o Cruzeiro representa a sacralização do território, a força da religiosidade popular e a capacidade das comunidades de ressignificar a dor por meio da fé. Sua permanência após a tragédia de 1998 reforça a dimensão simbólica atribuída ao sagrado, funcionando como eixo de continuidade entre passado e presente. Assim, o estudo da Santa Cruz de Rio dos Índios contribui para a compreensão das relações entre religião, memória coletiva e identidade cultural no contexto rural nordestino.
Referências
CÂMARA, Joana D’Arc Arruda. [Obra publicada pela Academia Ceará-Mirinense de Letras e Artes]. Ceará-Mirim: ACLA, 2017.
QUEIROZ, Guilherme Luiz Barbosa de. Projeto Reviver – Caderno 01. Ceará-Mirim: Prefeitura Municipal, 1993.
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