18/09/2026

VORCARO CHEGOU ATÉ GILMAR ATRAVÉS DE AJUDA DE EX-CUNHADO DO MINISTRO

Ex-cunhado de Gilmar ajudou Vorcaro a chegar ao ministro

Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) no bojo das investigações do caso do Banco Master mostram que Daniel Vorcaro foi aconselhado em abril de 2024 pelo empresário Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar Mendes, a se aproximar do ministro, sob a alegação de que seria “importante para o futuro”. Nas conversas, Chiquinho se refere ao dono do Banco Master como “irmão” e se apresenta como uma ponte entre Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Pelas conversas, fica claro que Chiquinho tinha um contrato de consultoria com Vorcaro. Procurado, ele disse que teve um contrato de “curto período” com a Super Empreendimentos, do ecossistema do Master, mas não esclareceu o período de vigência, o valor nem o escopo de atuação. Segundo a Folha de S. Paulo, o montante era de R$ 500 mil mensais.

– Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro! Ele é um grande sujeito com grande caráter e um grande amigo – escreveu Feitosa para Vorcaro em 19 de abril de 2024, ao sugerir a aproximação do banqueiro com o decano do STF.

Chiquinho é ex-senador, ex-deputado federal e presidente do Republicanos no Ceará, com atuação no setor de transportes. Na época da troca das mensagens, ele ainda era cunhado de Gilmar. O ministro se divorciou da advogada Guiomar Feitosa, irmã de Chiquinho, em novembro de 2025, ou seja, um ano e meio após o empresário sugerir a aproximação entre o banqueiro e Gilmar.

Em abril de 2024, quando Chiquinho encorajou Vorcaro a buscar o magistrado, o dono do Banco Master buscava interlocução com o ministro do Supremo em função de um julgamento sobre precatórios judiciais do setor sucroalcooleiro na Segunda Turma do STF, mesmo colegiado que dois anos depois se debruçaria sobre as investigações do Master. No mesmo mês, Gilmar recebeu Vorcaro em seu gabinete do STF para tratar do caso.

A análise sobre os precatórios tinha sido interrompida um mês antes por um pedido de destaque do próprio Gilmar. O processo tratava de um recurso da União contra a destilaria Alcídia, que cobrava a reparação de prejuízos provocados pela política de fixação de preços do governo na década de 1980. A ação envolvia pagamentos entre R$ 350 milhões e R$ 500 milhões e interessava a Vorcaro, já que o resultado do julgamento poderia produzir uma tese que teria impacto direto nos negócios do Master.

Em nota enviada à coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo, Gilmar disse que não teve conhecimento de “qualquer tratativa” entre Vorcaro e o ex-cunhado e alegou que não foi procurado por Chiquinho para tratar de assuntos do Master.

Íntegra da nota do gabinete de Gilmar:

Chiquinho Feitosa é ex-cunhado do Ministro. O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente.

A audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do Ministro, no Supremo Tribunal Federal, e contou com a presença dos advogados do Banco Master. Foi realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado. O recebimento de advogados em audiência é prerrogativa assegurada pelo art. 7º, VIII, da Lei 8.906/1994. Na ocasião, tratou-se de causa do setor sucroalcooleiro — ARE 1327995, de relatoria do Ministro Edson Fachin, em que figura como recorrida a Destilaria Alcídia S/A.

Nesse processo, julgado pela Segunda Turma em 3 de junho de 2025, o Ministro Gilmar Mendes votou contra os interesses do Banco Master. O voto foi contra o pagamento do precatório, no sentido defendido pela União. Ficou vencido, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. Prevaleceu a posição dos Ministros Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli, favorável à empresa.

O voto foi o mesmo em todos os demais casos do setor sucroalcooleiro julgados na Segunda Turma. No ARE 1312127 (Raízen), relatado pelo Ministro, ele votou contra o pagamento do precatório, e a União saiu vitoriosa em 16 de setembro de 2024, vencidos os Ministros Edson Fachin e Nunes Marques. No ARE 1392660 (Jalles Machado), votou duas vezes contra o pagamento à usina — em 6 de agosto de 2024 e em 19 de agosto de 2025 —, ficando vencido nas duas ocasiões, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. No ARE 1500251 (Raízen), pediu destaque em 15 de agosto de 2025 e interrompeu julgamento que se encaminhava em favor da usina. Na STP 976-ED, votou em todas as sessões contra a liberação do precatório de mais de R$ 5 bilhões.

Em nenhum desses processos o Ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada.

Nota de Chiquinho Feitosa:

1. Quando me reportei a ele sugerindo que se aproximasse do Ministro, fiz isso de forma despretensiosa, sem nenhuma outra intenção.

2. ⁠A maneira que me referi a ele, é uma forma que adoto com todas as pessoas com quem me relaciono.

3. ⁠Nunca fui ponte entre o Vorcaro e o Ministro Gilmar. Ele era um banqueiro bem sucedido e que mantinha relacionamentos com várias pessoas.

4. ⁠Tive um contrato de consultoria com a Super Empreendimentos durante um curto período. À época uma empresa idônea que atuava em diversos segmentos, e despertava interesse no mercado.

5. ⁠Afirmo com certeza que nunca me referi ao Daniel sobre esse jantar, que nunca existiu.

6. ⁠Marquei com minha irmã Guiomar, uma reunião a pedido do Daniel. Ele ficou de trazer para ela números de processos, coisa que nunca aconteceu.

pleno.news

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