13/09/2026

QUEM DIRIA? XANDÃO, O X9 DO SUPREMO!

As digitais de Moraes nos vazamentos para Vorcaro

Revelações obtidas com exclusividade por Oeste apontam o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como provável fonte de informações sigilosas recebidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro antes da Operação Compliance Zero.

Nos dias que antecederam sua prisão, o então dono do Banco Master demonstrou saber onde tramitava a investigação, mencionou o juiz responsável pelo caso, Ricardo Augusto Soares Leite, e consultou Moraes pelo WhatsApp sobre possíveis medidas cautelares.

As respostas do ministro não foram recuperadas porque os dois usavam o recurso de visualização única. Contudo, as mensagens enviadas por Vorcaro sugerem que o banqueiro recebia informações sobre o andamento do inquérito e sobre as diligências preparadas pela Polícia Federal (PF).
Defesa de Vorcaro entra em cena

Um plano de voo obtido por Oeste mostra que, em 17 de novembro, uma aeronave partiria do Aeroporto de Congonhas (CGH), em São Paulo, com destino a Brasília (BSB), para transportar os advogados do banqueiro. Eles tentariam despachar com o juiz responsável pelo inquérito, a fim de obter acesso aos autos e evitar medidas cautelares contra o Master.

Na tentativa de localizar o inquérito, os advogados entraram em contato com a 10ª Vara Federal Criminal de Brasília e receberam a orientação de enviar a petição por e-mail. O documento pedia acesso à investigação e oferecia a colaboração do Master e dos dirigentes do banco.

A petição foi assinada por Walfrido Warde, Pierpaolo Bottini, Roberto Podval e Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União no governo Jair Bolsonaro. Os advogados sustentaram que uma intervenção poderia causar impacto sobre o Master e comprometer as negociações em andamento. Alegaram também que o Banco Central (BC) não havia identificado irregularidades nas operações nem nas demonstrações financeiras do Master. Quando a defesa encaminhou a petição, a prisão preventiva de Vorcaro já havia sido decretada. Ricardo Leite assinou a ordem às 15h29. O documento chegou ao e-mail da vara às 15h47, 18 minutos depois.

A PF passou a examinar a coincidência entre a assinatura da ordem de prisão e o envio da petição como indício de que Vorcaro recebera informações antecipadas.

Documentos obtidos por Oeste mostram que a defesa ainda não conhecia o número do inquérito nem tinha confirmação de que o procedimento tramitava na 10ª Vara Federal de Brasília. Às 11h08 de 17 de novembro, o site O Bastidor informou que o juízo investigava uma possível fraude bilionária relacionada à tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Com base nessa reportagem, os advogados encaminharam uma petição ao e-mail da 10ª Vara para tentar localizar o inquérito e obter acesso aos autos.
Os diálogos entre Moraes e Vorcaro

As mensagens recuperadas pela PF mostram que Vorcaro procurava Moraes desde pelo menos 4 de novembro. Naquela data, o banqueiro perguntou que tipo de medida poderia ser adotada no inquérito e quis saber se haveria uma busca ou quebra de sigilo. Na conversa, o banqueiro alertou para as consequências de uma operação sobre o Master. “Vai tudo por água abaixo”, escreveu. Às 19h09, informou que permaneceria acordado à espera de novidades. Mais tarde, às 20h45, pediu que Moraes verificasse se conseguiria “bloquear toda maldade”. Vorcaro afirmou que uma medida drástica poderia quebrar o Master de forma irreversível.

Em 6 de novembro, o banqueiro voltou a pedir informações. Perguntou como estava a situação, se o ministro havia conseguido “bloquear a maldade”, se o caso tramitava em Brasília, qual era o tema investigado e se seria necessário adotar alguma providência jurídica urgente. Na conversa, Vorcaro contou que o advogado Pierpaolo Cruz Bottini, um dos responsáveis pela defesa, havia apresentado um pedido para tentar localizar o inquérito e encaminhá-lo à vara responsável. De acordo com o banqueiro, Bottini temia que uma petição sem justificativa pudesse acelerar alguma medida. Em seguida, Vorcaro pediu a opinião de Moraes sobre a estratégia jurídica.

Em 7 de novembro, Vorcaro disse a Moraes que temia o impacto de uma ação da PF sobre os negócios do banco. “Amanhã, vamos ver se conseguimos puxar do lado de cá”, escreveu.



“Segunda já tenho que estar fora?”

A troca de mensagens se intensificou à medida que a prisão se aproximava. Em 15 de novembro, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Depois de receber uma mensagem do ministro cujo conteúdo não foi recuperado, o banqueiro respondeu: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”.

Na mesma conversa, Vorcaro perguntou se o inquérito estava com o juiz Ricardo Leite e se o presidente do BC, Gabriel Galípolo, sabia da investigação. Ainda quis saber se Moraes poderia “fazer alguma coisa”. Naquela semana, Vorcaro preparava o anúncio da venda do Master.

Em 16 de novembro, o banqueiro perguntou ao ministro se havia possibilidade de alguma medida ser cumprida na manhã do dia seguinte. A ordem de prisão ainda não havia sido assinada por Ricardo Leite.

Na manhã de 17 de novembro, Vorcaro manteve contato com Moraes. Às 7h19, informou que tentava antecipar a entrada de investidores no Master e que poderia assinar e anunciar parte da operação de venda naquele mesmo dia. Relatou ainda que informações sobre a investigação começavam a circular, embora ainda sem detalhes.

Prisão no aeroporto

A prisão seria cumprida inicialmente na manhã de 18 de novembro. A PF antecipou a operação ao suspeitar que Vorcaro poderia deixar o país.

Na tarde de 17 de novembro, das 13h30 às 14h10, Vorcaro participou de uma videoconferência com representantes do BC. Estavam na reunião Aílton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização, e Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Vorcaro informou aos dois que buscava uma solução de mercado para o Master e viajaria a Dubai para encontrar investidores. O Banco Central confirmou que recebeu a informação verbalmente. A videoconferência não foi gravada.

Por volta das 22h, o banqueiro foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Preparava-se para embarcar em um jato particular com destino a Dubai e escala em Malta.

Para a PF, a viagem reforçou a suspeita de fuga. Vorcaro negou essa versão. Ele afirmou que iria a Dubai para concluir as negociações com os investidores estrangeiros e que havia viajado uma semana antes para tratar com o mesmo grupo.

Em 18 de novembro, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master, ao citar a grave crise de liquidez, o comprometimento significativo da situação econômico-financeira e as graves violações das normas do Sistema Financeiro Nacional.

Vorcaro foi solto em 29 de novembro de 2025.

O depoimento à Polícia Federal

O banqueiro prestou depoimento à PF em 30 de dezembro de 2025. A delegada Janaína Palazzo questionou como os advogados haviam apresentado uma petição à vara correta no mesmo dia em que a prisão foi decretada.

A delegada perguntou se o banqueiro recebera antecipadamente informações sobre o local de tramitação do processo. Vorcaro respondeu que a defesa havia apresentado pedidos semelhantes em outros locais depois da publicação de notícias sobre o inquérito.

Indagado sobre eventual acesso a documentos sigilosos, Vorcaro afirmou que não se recordava. Ele admitiu a possibilidade de ter recebido informações de um repórter, embora tenha dito não se lembrar.

Os desdobramentos do escândalo

Também em dezembro, o caso chegou ao STF por determinação do ministro Dias Toffoli, depois da descoberta de transações imobiliárias entre o banqueiro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro por prerrogativa de função.

Toffoli deixou posteriormente a relatoria. A saída ocorreu depois da divulgação de negócios envolvendo o Tayayá Resort, empreendimento ligado à família do ministro, e pessoas ou fundos relacionados ao entorno de Vorcaro.

O ministro André Mendonça assumiu o caso e determinou a segunda prisão de Vorcaro. A PF prendeu novamente o banqueiro em 4 de março de 2026. Duas propostas de colaboração premiada apresentadas por Vorcaro foram rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República. Ele busca uma terceira oportunidade para negociar um acordo.

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