12/09/2026

GALERIA HISTÓRICA: O BARRACÃO DA USINA SÃO FRANCISCO - POR GERINALDO MOURA

Galeria Histórica

O BARRACÃO DA USINA SÃO FRANCISCO: ENDIVIDAMENTO, TRABALHO E MEMÓRIA NA INDÚSTRIA AÇUCAREIRA DO RIO CEARÁ-MIRIM

Texto: Gerinaldo Moura da Silva
Fotos: Arquivo do autor

O barracão funcionava como instituição comercial e mecanismo de controle do trabalho na indústria açucareira da ribeira do rio Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte, destacando como exemplo, o Barracão da Usina São Francisco, que articulava venda a crédito, endividamento perene e subordinação do trabalhador rural aos proprietários de engenhos e usinas que tinham a mesma prática em seus territórios. No Nordeste brasileiro, a expansão da indústria açucareira consolidou, ao longo do século XX, um conjunto de práticas comerciais que extrapolavam a simples relação de compra e venda entre proprietários e trabalhadores. Entre elas, destacou-se o barracão: estabelecimento situado nas proximidades de engenhos e usinas, destinado ao abastecimento dos trabalhadores da lavoura canavieira e de suas famílias. Ainda que se apresentasse como serviço de conveniência, o barracão funcionava, na prática, como instrumento de sujeição econômica, na medida em que submetia o trabalhador a um regime de endividamento praticamente ininterrupto, daquele que, segundo a memória popular, "jamais têm fim". O Barracão da Usina São Francisco, situado às margens do rio Ceará-Mirim, utilizava a mesma prática de comercializar, exemplificando dois outros estabelecimentos da mesma ribeira: os barracões do Engenho Umburanas e do Engenho São Leopoldo, de modo a evidenciar tanto a regularidade do fenômeno na região quanto as singularidades de cada caso.

O barracão inseria-se em uma lógica de controle do trabalho que ultrapassava a simples oferta de mantimentos. Ao conceder crédito facilitado, o chamado "fiado", e registrar as compras em cadernetas ou folhas de papel de embrulho, os responsáveis pelo barracão criavam um vínculo de dependência que dificilmente se rompia. O trabalhador do eito, cuja atividade se concentrava no cultivo e no corte da cana, não dispunha de alternativa: dependia do barracão para sua subsistência e a de sua família, ao passo que trabalhadores de outras funções, como cambiteiros e fornalheiros, eram deliberadamente cortejados pelos donos dos barracões, que lhes ampliavam o crédito como forma de assegurar sua fidelidade. Esse mecanismo aproxima-se do que a historiografia do trabalho denomina truck system: regime no qual o pagamento do trabalhador, total ou parcialmente convertido em vale ou mercadoria, o mantém preso a um único ponto de fornecimento, controlado pelo próprio empregador ou por pessoa de sua confiança. O relato de Francisco Martins Alves Neto sobre o pequeno barracão de sua família ilustra a difusão dessa prática para além dos limites da indústria açucareira, alcançando também propriedades algodoeiras e de outros gêneros:

"Papai tinha um barracão. [...] Barracão neste caso não faz referência a um barraco grande, ele era um pequeno comércio, que funcionava dentro da nossa casa. Havia duas portas abertas ao público, um balcão de madeira que ia de uma extremidade a outra da parede. [...] Papai procurava vender o básico e indispensável à sua clientela; assim sendo, não faltava: rapadura, farinha, feijão, carne de charque, bacalhau, fumo em rolo [...]" (ALVES NETO, [2021]).

O depoimento de Arnaldo Moreira, responsável pelo barracão do Engenho São Leopoldo, evidencia ainda um problema estrutural desse sistema: a entressafra. Durante o período em que os engenhos interrompiam a moagem, os moradores continuavam a comprar fiado, acumulando dívidas que só poderiam ser quitadas quando o trabalho e, consequentemente, o pagamento, fosse retomado. Poucos dispunham de fontes alternativas de renda, como a venda de hortaliças, frutas ou pequenos animais domésticos, ou ainda o trabalho de lavadeiras, que permitiam abater parte do débito antes do reinício da safra (MOREIRA, 2020). Entre os barracões mais conhecidos da ribeira do velho rio Ceará-Mirim, destacavam-se os do Engenho Umburanas, do Engenho São Leopoldo e da Usina São Francisco, cujo alcance ultrapassava os limites das propriedades a que estavam vinculados, atendendo também trabalhadores de propriedades circunvizinhas.

Fundado pelo Padre Antunes e posteriormente adquirido por Paulo Varela, sócio e irmão do senador Luiz Lopes Varela, o Engenho Umburanas teve como administrador João Francisco de Azevedo, a quem também coube gerenciar o barracão. Caso digno de nota é o de sua filha, Maria Soledade de Azevedo Silva, que assumiu a responsabilidade direta pelo estabelecimento, situação incomum em um universo de trabalho marcadamente masculino. Em seu depoimento, Dona Soledade relata que essa foi sua primeira experiência de trabalho, incumbindo-se de vender, anotar os fiados, realizar pagamentos e reabastecer o comércio (SILVA, 2020).

No Engenho São Leopoldo, de propriedade de Joaquim Câmara, o barracão foi administrado por Arnaldo Moreira, encaminhado à função pelo funcionário Napoleão Moreira. Durante os quatro anos em que ali permaneceu, Arnaldo Moreira deslocava-se periodicamente até Ceará-Mirim para adquirir mercadorias no armazém de Manoel Luiz de Lima, na Quadra do Mercado, de modo a manter o abastecimento do barracão: carne seca, farinha, feijão, café em grão, utensílios domésticos, bolachas e a "famosa cachacinha" figuravam entre os produtos oferecidos aos trabalhadores, que recebiam seu pagamento em vale e compravam fiado ao longo da semana (MOREIRA, 2020).

A Usina São Francisco, de propriedade de Luiz Lopes Varela, coexistia, no cenário açucareiro local, com a Usina Santa Tereza, de Ubaldo Bezerra de Melo, e a Usina Ilha Bela, dos Úrsulo. Seu barracão teve como um de seus proprietários Isídio Félix da Silva, para quem trabalhou como ajudante o senhor conhecido como “Seu Lucas”, esposo de Terezinha de Araújo Silva, hoje reconhecida no bairro Carrasco como "Terezinha do finado Lucas". Segundo o depoimento de Dona Terezinha, seu esposo despachava mercadorias e anotava em caderneta os vales a serem descontados no pagamento dos trabalhadores, tendo também atuado como apontador na Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim (SILVA, 2021). Dona Terezinha contribuía para a renda familiar assando bolos em forno a lenha construído no quintal de sua própria casa, os quais eram posteriormente comercializados por seu esposo no barracão, um pequeno diferencial em meio a produtos que, segundo seu relato, nem sempre eram de boa qualidade, mas que os trabalhadores se viam obrigados a consumir, dado que os vales recebidos como pagamento mal cobriam o valor das compras.

O depoimento de Antonio Galdino Pereira, conhecido como Citonho, ex-morador da Usina São Francisco e filho de Miguel Vital Pereira que era turbineiro da indústria, acrescenta outra camada a essa história: a da sucessão dos proprietários do barracão, de Euzébio a Luís de França (conhecido como "seu Loló"), e da posterior incorporação da usina, de seus engenhos e fazendas à Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim (PEREIRA, 2020).

A reconstituição do funcionamento cotidiano dos barracões, depende quase integralmente de depoimentos orais, o que não constitui limitação incidental, mas condição estrutural do objeto: instituições informais como o barracão raramente deixaram registro documental sistemático, sobrevivendo sobretudo na memória de trabalhadores, familiares e moradores das antigas propriedades açucareiras. Essa circunstância nos aproxima de uma perspectiva de história vista de baixo, na qual sujeitos historicamente relegados a papel secundário na narrativa histórica como os trabalhadores rurais, as mulheres responsáveis por pequenos comércios e os filhos de operários, tornam-se protagonistas do relato. Os depoimentos da Professora Maria Soledade, de seu Arnaldo Moreira, de dona Terezinha de Araújo Silva e de Citonho, não apenas descrevem o funcionamento do barracão, mas revelam também as relações de trabalho, parentesco e vizinhança que estruturavam a vida social em torno da indústria açucareira. Nesse sentido, a memória funciona simultaneamente como fonte de informação factual e como testemunho da experiência subjetiva de sujeição e de resistência cotidiana ao regime de endividamento imposto pelo barracão.

O fim do Barracão da Usina São Francisco esteve diretamente associado à chegada de um novo proprietário da usina, Geraldo José da Câmara Ferreira de Melo. Segundo o depoimento de Citonho, o novo usineiro reuniu os funcionários e anunciou que quitaria todas as contas registradas no barracão, doravante pagando os trabalhadores em dinheiro, de modo que pudessem comprar onde melhor lhes conviesse, no comércio de Ceará-Mirim, ou em qualquer outro local. Essa medida, ainda que representasse um ganho de liberdade econômica para os trabalhadores, teve como efeito imediato o esvaziamento da clientela do barracão, que fechou suas portas em definitivo (PEREIRA, 2020). Após o fechamento, o prédio permaneceu desocupado. Um grupo de desportistas ligados à Usina São Francisco chegou a tentar utilizá-lo como sede própria do Botafogo, iniciativa que esbarrou repetidamente em entraves burocráticos. Hoje, a edificação encontra-se à mercê de vândalos, configurando-se como mais um exemplo, entre tantos, da arquitetura industrial do século XX fadada ao desaparecimento na paisagem urbana e rural de Ceará-Mirim. Esse desfecho situa o Barracão da Usina São Francisco em um quadro mais amplo de precariedade na preservação do patrimônio industrial nordestino. Diferentemente das grandes casas-grandes e capelas, frequentemente contempladas por políticas de tombamento, estruturas ligadas diretamente ao trabalho, barracões, senzalas, antigas moendas, tendem a permanecer à margem das iniciativas de preservação, apesar de constituírem testemunho material insubstituível das relações de trabalho que sustentaram a economia açucareira regional.

O Barracão da Usina São Francisco, bem como os barracões dos engenhos Umburanas e São Leopoldo, nos permite compreender esse tipo de estabelecimento como peça central de um sistema mais amplo de controle do trabalho na indústria açucareira da ribeira do Ceará-Mirim. Por meio do crédito facilitado e do endividamento contínuo, o barracão articulava-se ao regime de trabalho da lavoura canavieira, mantendo o trabalhador rural em condição de dependência que persistia mesmo durante os períodos de entressafra. A extinção do barracão, decidida unilateralmente pelo novo proprietário da usina, não decorreu de reivindicação organizada dos trabalhadores, mas de decisão administrativa, o que não diminui, contudo, seu significado histórico como marco de transição para relações de trabalho monetizadas. Já o abandono físico do prédio que abrigou o barracão sinaliza um problema mais amplo: a fragilidade das políticas de memória e preservação voltadas ao patrimônio industrial e do trabalho na região, cuja materialidade corre o risco de desaparecer antes mesmo que sua história seja integralmente registrada.

REFERÊNCIAS

ALVES NETO, Francisco Martins (Mané Beradeiro). Relato sobre o barracão familiar. [2021]. Depoimento.

MOREIRA, Arnaldo. Depoimento sobre o barracão do Engenho São Leopoldo. Ceará-Mirim Vale de Cultura, Facebook, 2020.

PEREIRA, Antonio Galdino (Citonho). Depoimento sobre a Usina São Francisco e o encerramento do barracão. Relato oral coletado pelo autor. 2020]
SILVA, Maria Soledade de Azevedo. Depoimento sobre o barracão do Engenho Umburanas. Ceará-Mirim Vale de Cultura, Facebook, 12 set. 2020.

SILVA, Terezinha de Araújo. Depoimento sobre o barracão da Usina São Francisco. Ceará-Mirim Vale de Cultura, Facebook, 21 jun. 2021.

Professor de História, escritor e memorialista de Ceará-Mirim/RN. Membro da Academia Ceará-Mirinense de Letras e Artes "Pedro Simões Neto

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