Ex-atleta precisou de hemodiálise e de transplante após consumo excessivo de proteína
A busca por mais músculo levou o ex-atleta Tiago Guzoni, de 30 anos, a enfrentar graves problemas renais em decorrência de uma dieta hiperproteica que ele acreditava ser segura.
Alto e com dificuldade para ganhar massa, Guzoni escolheu aumentar o consumo de proteína na comida para evitar recorrer a anabolizantes. A estratégia parecia inofensiva, mas acabou transformando a vida dele. A história foi mostrada pelo Fantástico.
Durante dois anos, Tiago organizou a rotina alimentar em torno de grandes quantidades de proteína. Quando não conseguia atingir os “macros” do dia, apostava em hipercalóricos, shakes proteicos e porções generosas de frango, carne e peixe. Ele acreditava que precisa combinar treinos intensos com muita proteína para alcançar o físico desejado.
"O primeiro sintoma foi exatamente na academia, quando eu estava treinando. E já fazia mais de um mês que eu vinha sentindo umas fortes dores de cabeça. Eu achava que era enxaqueca", revela Tiago.
Só quando o incômodo começou a atrapalhar o dia a dia que ele decidiu procurar um médico.
Na primeira consulta, o diagnóstico parecia simples: pressão alta, possivelmente causada por colesterol elevado.
Tiago recebeu medicamentos e voltou para casa. A pressão melhorou, mas o alívio durou pouco. Um ano depois, os sintomas retornaram — mais intensos — e acendeu um alerta.
Proteína em excesso acelerou a falha do rim
Na nova investigação, um endocrinologista pediu uma bateria completa de exames. Dessa vez, o resultado revelou o que havia passado despercebido: o rim de Tiago estava funcionando pela metade.
"E foi esse endócrino que falou que o meu rim já estava com problema e já estava com 50% de funcionamento", aponta o ex-atleta.
A doença evoluiu silenciosamente, como é comum em quadros renais, e só depois se tornou evidente.
Com o diagnóstico correto, veio a notícia mais dura: Tiago precisaria iniciar hemodiálise. Ele passou oito meses em tratamento com a máquina que fazia o trabalho que seus rins já não conseguiam executar. A rotina exigiu disciplina, cansaço constante e reestruturação completa dos hábitos.
"Se a gente tivesse identificado essas alterações e iniciado um tratamento precoce, o Tiago era um paciente que poderia não ter evoluído com a doença renal de forma tão acelerada", revela a nefrologista Fernanda Badiani.
A causa do problema não se limita à proteína em si, mas à combinação entre consumo excessivo e um rim que já apresentava alterações não diagnosticadas.
Em 2024, Tiago recebeu a chance de recomeçar: passou por um transplante de rim e iniciou o processo de recuperação. O retorno à rotina foi lento. Primeiro, um mês em casa, sem dirigir, treinar ou trabalhar. Depois, a retomada gradual das atividades, sempre com controle rigoroso da alimentação.
Hoje, ele mantém acompanhamento com uma nutricionista especializada em doenças renais. A dieta inclui proteínas em quantidades adequadas ao peso e à composição corporal dele — não mais em excesso.
Tiago pode comer o que tem vontade, mas com cuidado
Ele voltou a comer de tudo, mas com equilíbrio, priorizando legumes, verduras e fontes de proteína bem distribuídas ao longo do dia.
"Nessa refeição, caso você sinta mais fome, você pode sim ir lá e colocar algumas coisinhas diferentes, não tem problema, porque o mais importante da alimentação como um todo é aquilo que você faz todos os dias", indicou Renata Rodrigues, nutricionista renal.
A experiência dura foi marcante, mas também o transformou. Tiago diz que agora entende que o corpo precisa de cuidados contínuos, não de exageros.
A história dele serve de alerta para quem acredita que mais proteína significa automaticamente mais saúde.
Os especialistas orientam que é fundamental haver acompanhamento médico e nutricional para evitar que o excesso de proteína se torne um problema grave.
A febre da proteína
A proteína virou uma febre e se tornou atrativo de venda: aparece em leites, pães, iogurtes, barras, biscoitos e até bolos. A reportagem do Fantástico buscou especialistas que apontaram o consumo exagerado desse nutriente pode até aumentar o peso da pessoa.
"Se a gente consome proteína em excesso, a gente não vai aproveitar essa proteína para finalidade dela, que seria a constituição corporal, formação de massa muscular. Isso vai ser armazenado de alguma forma no organismo e pode virar gordura corporal", aponta a nutricionista Lara Natacci.
Especialistas ouvidos pela reportagem do Fantástico explicaram que a proteína é essencial para o funcionamento do organismo. Ela forma músculos, tecidos e participa da produção de hormônios e enzimas. Apesar disso, a recomendação diária varia conforme o perfil de cada pessoa, e o excesso pode prejudicar a saúde.
Hoje, há divergências entre orientações internacionais: enquanto a nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos sugere aumentar a ingestão de proteína animal, a Organização Mundial da Saúde indica uma quantidade menor.
"Ela está orientando a 50% a mais proteína do que a Organização Mundial da Saúde. Os Estados Unidos recomendam 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo. A Organização Mundial da Saúde, 0,8 até 1.2 gramas", explica a nutricionista e pesquisadora da USP, Sophie Deram.
Nutricionistas lembram que nem sempre essas diretrizes estrangeiras fazem sentido para a alimentação do brasileiro. Idosos, pessoas em tratamento para ganho de massa muscular ou quem está em dietas de emagrecimento podem precisar de mais proteína.
Mas, para a maioria da população, a recomendação básica segue em torno de 1 grama por quilo de peso por dia — distribuída ao longo das refeições, e não acumulada em um único prato.
O corpo só aproveita uma parte do que consumimos por refeição — cerca de 25 a 30 gramas. O que excede essa capacidade pode acabar sendo armazenado pelo organismo em forma de gordura.
É por isso que algumas pessoas que comem grandes quantidades de proteína para emagrecer podem, na verdade, engordar.
O risco aumenta para quem já tem alguma predisposição a doenças renais. Para pessoas com função renal comprometida, dietas hiperproteicas podem acelerar a perda de funcionamento dos rins. E o grande problema é que a maioria não sabe que tem essa condição, já que os sintomas aparecem apenas quando a doença está avançada.
Dois exames simples — creatinina e urina — poderiam detectar alterações precocemente.
Fantástico

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