Rio amigo, rio antigo,
quem mais te possuiu fui eu,
um amante do teu leito
do teu jeito, dos teus feitos,
teus trejeitos e desfeitos.
Luzias mil mistérios,
sussurravas doces versos,
quando ias, sinuoso,
a caminho de Muriú.
Eu dizia do destino
suicida dos rios, que
é morrer prostituído
nas águas do oceano,
perdido, salinizado
como os pecadores de
Sodoma e de Gomorra.
Prefiro lembrar-te sempre
vivo e sempre mutante como
todo caminho que anda.
Afinal és um imortal
porque nunca fostes um só,
mas uma legião, uma
multiplicidade de ti
reproduzido enquanto
corrias, e as entranhas
se enchiam de correntes
outras, (as mesmas, embora
sejam todas diferentes)
Adornavas-te de fios
de ouro e prata do sol
e da lua; os vegetais
teciam rendas e sedas
na tua nudez líquida.
Vestias-te só para ti
porque eras reflexo do
teu próprio encantamento.
Tu refrescavas os corpos
amornados, suarentos
do eito do canavial
e abrias o sorriso
das crianças domingueiras.
Muitos já te possuíram e
nunca me enciumastes,
porque no teu corpo uma
dançarina transformista
criava novas imagens,
novas coreografias.
Nas tuas danças, andanças,
eras fúria no inverno,
e sutil nos veraneios.
Poderias reclamar um
sacrifício humano,
quando caudalosamente
eras tão passional, qual
um deus na sua fúria.
Mas preferias transportar
algumas ilhas vegetais
e atônitos animais
em tua extravasão.
Pantomimas criativas
aquelas que encenavas...
A cobra abraçada à
bananeira, o espelho
d´água lavando a ponte.
Denúncias de tragédias
– o berço que flutuava
orfão, peixeira fora da
bainha, a alpercata de
rabicho, o vestidinho
de chita vermelho vivo.
As comédias da vida:
casal nu que fornicava
no balanço da canoa.
Ah quanto te amo, rio
da minha aldeia querida
que os anos não trazem mais.
A saudade dos canga-pés,
da tão inocente nudez
dos corpos colegiais,
rio de todos os homens
Rio dos Homens, dos sonhos
o das cheias e das secas
O Rio da minha vida
da infância atrevida
rio antigo, rio amigo
ó meu rio Bacuípe
oceano igarapé.
Pedro Simões

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