08/08/2011

VELHO RIO DOS HOMENS

Ode ao Rio Ceará-Mirim


Rio amigo, rio antigo,

quem mais te possuiu fui eu,

um amante do teu leito

do teu jeito, dos teus feitos,

teus trejeitos e desfeitos.

Luzias mil mistérios,

sussurravas doces versos,

quando ias, sinuoso,

a caminho de Muriú.

Eu dizia do destino

suicida dos rios, que

é morrer prostituído

nas águas do oceano,

perdido, salinizado

como os pecadores de

Sodoma e de Gomorra.

Prefiro lembrar-te sempre

vivo e sempre mutante como

todo caminho que anda.

Afinal és um imortal

porque nunca fostes um só,

mas uma legião, uma

multiplicidade de ti

reproduzido enquanto

corrias, e as entranhas

se enchiam de correntes

outras, (as mesmas, embora

sejam todas diferentes)

Adornavas-te de fios

de ouro e prata do sol

e da lua; os vegetais

teciam rendas e sedas

na tua nudez líquida.

Vestias-te só para ti

porque eras reflexo do

teu próprio encantamento.

Tu refrescavas os corpos

amornados, suarentos

do eito do canavial

e abrias o sorriso

das crianças domingueiras.

Muitos já te possuíram e

nunca me enciumastes,

porque no teu corpo uma

dançarina transformista

criava novas imagens,

novas coreografias.

Nas tuas danças, andanças,

eras fúria no inverno,

e sutil nos veraneios.

Poderias reclamar um

sacrifício humano,

quando caudalosamente

eras tão passional, qual

um deus na sua fúria.

Mas preferias transportar

algumas ilhas vegetais

e atônitos animais

em tua extravasão.

Pantomimas criativas

aquelas que encenavas...

A cobra abraçada à

bananeira, o espelho

d´água lavando a ponte.

Denúncias de tragédias

– o berço que flutuava

orfão, peixeira fora da

bainha, a alpercata de

rabicho, o vestidinho

de chita vermelho vivo.

As comédias da vida:

casal nu que fornicava

no balanço da canoa.

Ah quanto te amo, rio

da minha aldeia querida

que os anos não trazem mais.

A saudade dos canga-pés,

da tão inocente nudez

dos corpos colegiais,

rio de todos os homens

Rio dos Homens, dos sonhos

o das cheias e das secas

O Rio da minha vida

da infância atrevida

rio antigo, rio amigo

ó meu rio Bacuípe

oceano igarapé.


Pedro Simões

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