PF aponta que Lulinha é citado como 'destinatário de pagamentos' de empresário com interesses no governo
A Polícia Federal identificou indícios de que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria sido beneficiado por pagamentos e despesas custeadas a partir de recursos de um empresário interessado em contratos com órgãos do governo federal. As informações constam em relatório obtido pelo Estadão e divulgado nesta sexta-feira (21).
Segundo o jornal, a apuração está relacionada à atuação do empresário Cléber Ribas de Oliveira, ligado ao setor de tecnologia, e da lobista Roberta Luchsinger. A PF investiga suspeitas de tráfico de influência envolvendo negócios junto à Dataprev, empresa pública de tecnologia, além de outras áreas da administração federal.
Informações obtidas após a quebra de sigilo de Roberta indicam que ela teria sido contratada por Cléber para intermediar interesses de suas empresas perante órgãos públicos. Em mensagens analisadas pelos investigadores, a lobista solicita pagamentos ao empresário e afirma que parte dos valores serviria para custear despesas de Lulinha.
A PF também aponta que o filho do presidente teria participado de reuniões relacionadas aos interesses empresariais de Cléber e, em uma das ocasiões, pedido a Roberta que emitisse uma nota fiscal destinada ao empresário.
“Fabio surge em diversos momentos associado a reuniões de interesse empresarial, é mencionado como destinatário de pagamentos e benefícios custeados por terceiros, participa de discussões sobre a condução dos negócios desenvolvidos pelo grupo e, ao menos em uma oportunidade, intervém diretamente em questão relacionada à emissão de nota fiscal destinada a Cleber Ribas de Oliveira. Tais circunstâncias, consideradas em conjunto, constituem indícios de efetiva participação de Fabio nas atividades desempenhadas pela associação informal investigada, recomendando o aprofundamento das diligências para esclarecer o seu papel, eventual responsabilidade e possível vantagem auferida no contexto dos fatos ora apurados”, registra o relatório da PF, segundo o Estadão.
A corporação abriu um inquérito específico para investigar a intermediação de negócios de Cléber junto à Dataprev. Há ainda outras apurações relacionadas à atuação de Roberta e Lulinha no Ministério da Saúde e em diferentes áreas do governo federal.
Empresário pagou R$ 2,5 milhões a lobista
Ainda segundo o Estadão, a PF identificou pagamentos de pelo menos R$ 2,5 milhões feitos por Cléber Ribas a Roberta Luchsinger entre março de 2024 e dezembro de 2025. Os investigadores afirmam que ela atuava na marcação de reuniões com integrantes da Dataprev e outros agentes públicos.
Em uma mensagem de junho de 2023 reproduzida pelo jornal, Roberta relatou ao empresário uma série de contatos que estaria fazendo:
“Marquei semana q vem Geap p vc tb
Amanhã Julio
Portos e aeroportos
Correios
E aguardando Dataprev confirmar
Agora tô indo p mds... mas acho q vai dar certo
Mas fique tranquilo q a expectativa é mto boa
Só vc p me fazer o q fiz... vamos aguardar agora à tarde o resultado
Mas eu envolvi o palácio
Depois te conto pq tô numa mesa com 10″.
O Estadão informou que Roberta realizou 17 visitas ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) em 2023 e 2024. Empresas ligadas a Cléber obtiveram, posteriormente, contratos de R$ 14,4 milhões e R$ 19,2 milhões com a pasta.
A existência dos contratos, por si só, não comprova irregularidade. A investigação busca esclarecer se houve influência indevida na obtenção de negócios públicos e eventual participação dos investigados.
Mensagens mencionam pagamentos a Fábio
Em setembro de 2023, segundo o material analisado pela PF e divulgado pelo Estadão, Roberta cobrou Cléber sobre um pagamento e mencionou o filho do presidente. “E me avisa lá tb do pagamento do Fábio q ele me perguntou pq ele vai viajar”, escreveu.
Semanas depois, em outra cobrança, ela afirmou: “Qdo fizer me avisa por favor pq ele perguntou aqui”. Segundo a PF, a hipótese considerada pelos investigadores é de que a referência fosse novamente a Lulinha.
Em outra conversa, divulgada inicialmente pelo portal Metrópoles e citada pelo Estadão, o próprio Fábio teria pedido a Roberta: “Emite a NF pro Cleber”.
Outro diálogo analisado pela PF ocorreu em agosto de 2025. Nele, Roberta questionou Cléber sobre um pagamento atribuído a uma pessoa chamada “Freitas” e afirmou que o dinheiro seria usado em passagens aéreas para Fábio.
“Bom dia, tudo bem? Deixa eu te falar, o Freitas paga quando? Aí será que ele não paga hoje não? Tem que pagar essa bosta dessas passagens pro Fabio, aí vai pagar com o dinheiro do Freitas, tá foda”, afirmou a lobista em áudio reproduzido pelo jornal.
A PF interpretou a mensagem como possível indício de que recursos recebidos pela empresa de Roberta seriam utilizados em despesas do filho do presidente.
“No dia 25/8/2025, Roberta encaminha mensagem de áudio a Cleber com a finalidade de questionar quando Freitas irá efetuar o pagamento. Conforme afirmação de Roberta, Fabio necessita do dinheiro para compra de passagens para a Espanha. Essas mensagens podem corroborar com a afirmação de que Fabio se utilize financeiramente dos pagamentos efetuados para a empresa RL Consultoria e intermediações, empresa vinculada a Roberta”, diz trecho do relatório citado pelo Estadão.
“Vc q cuida das minhas finanças”
A investigação também recuperou conversas em que Lulinha afirma que Roberta cuidava de suas finanças. Segundo o Estadão, a PF identificou ao menos R$ 4 milhões recebidos pela lobista de empresários investigados.
Em maio de 2024, ao discutir os custos de uma viagem com familiares para a África, Fábio perguntou: “A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc q cuida das minhas finanças”. Roberta respondeu: “Temos”.
Em outra conversa, sobre uma possível viagem a Genebra, na Suíça, em janeiro de 2024, Fábio demonstrou preocupação com os gastos e com a exposição pública. “Então... deixa eu te falar... não estou nada confortável com essa viagem... Não acho que devíamos fazer nesse momento”, escreveu.
Após Roberta informar uma estimativa de 100 mil por pessoa, sem especificar a moeda, ele voltou a demonstrar resistência. “Então meu amor... Eu não tenho nem dim dim nem origem pra isso... Não dá preu gastar esse tanto agora... Qualquer merda não tem explicação nenhuma”, afirmou.
Roberta respondeu que seria possível realizar a viagem desde que não houvesse exposição nas redes sociais. “Mas de boa, realxa.. não vai dar problema. As pessoas podem ser convidadas de amigos ué. É só ninguém postar nada em redes e nem falar onde é”, escreveu.
Até a publicação da reportagem do Estadão, as defesas dos citados ainda não haviam se manifestado sobre o conteúdo revelado.
Com informações do Estadão







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