09/08/2026

O RUSSO QUE LULA RECEBEU FORA DA AGENDA

O homem misterioso de Lula

Na terça-feira passada, um homem de 75 anos que não pode entrar nos Estados Unidos nem na União Europeia atravessou o Palácio do Planalto e apertou a mão do presidente. 

O encontro não constou da agenda oficial. O Planalto não divulgou nota, não divulgou foto, não anunciou nada. Quem contou ao mundo que aquilo tinha acontecido foi a embaixada da Rússia. 

O nome dele é Nikolai Patrushev. Dirigiu o FSB, herdeiro da KGB, de 1999 a 2008, e é assessor direto de Putin desde 2024. 

Em 2016, o inquérito público britânico sobre a morte de Alexander Litvinenko, envenenado com polônio-210 em Londres, concluiu no parágrafo 10.16: “a operação do FSB para matar o senhor Litvinenko foi provavelmente aprovada pelo senhor Patrushev e também pelo presidente Putin”. 

É por isso que está na lista de sancionados do Tesouro americano e da União Europeia. 

Há ainda uma acusação mais antiga, e ela precisa ser tratada pelo que é. Em setembro de 1999, prédios residenciais explodiram de madrugada em Moscou e em mais duas cidades, perto de trezentos mortos. 

Em Ryazan, moradores flagraram sacos de explosivo e um temporizador num porão, e o ministro do Interior anunciou um atentado evitado. No dia seguinte, Patrushev disse na televisão que era um exercício e que os sacos tinham açúcar. Dali nasceu a acusação de que o próprio FSB teria armado os atentados. Nenhum tribunal jamais julgou isso e a Duma nunca abriu investigação. É acusação, e continua sendo. 

Foi esse homem que o Brasil recebeu. 

Oficialmente, veio tratar do reator nuclear do submarino Álvaro Alberto e de construção naval. Passou pela Defesa, pelo Itamaraty, pelo comando da Marinha e pelo Arsenal de Marinha. No mesmo dia, o presidente telefonou para Putin, e segundo o Kremlin a ligação partiu do lado brasileiro. 

Agora repare na semana escolhida. 

Milei chamou Lula de presidiário num palanque em São Paulo, e o Itamaraty chamou o embaixador de volta, deixando vazia a embaixada em Buenos Aires. 

Washington taxou parte relevante do que vendemos, o Brasil negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado e, na mesma terça, cancelaram o visto da nossa embaixadora. Nove dias antes, Lula falara mais de uma hora com Xi Jinping, e o comunicado chinês registrou que a China se opõe à interferência externa. 

A aproximação com Moscou tampouco é nova. Em 2025, com a guerra em curso, Lula assinou acordos nucleares com a Rosatom. Em 2026, Celso Amorim disse, de Moscou, que na Ucrânia o Brasil não tem que tomar partido. E a Rússia é hoje a principal fornecedora do diesel que importamos. 

A pergunta é outra: por que um encontro desses fica fora da agenda oficial, e por que quem informa o brasileiro sobre o que se passou no Planalto é a embaixada de outro país. 

Fontes: The Litvinenko Inquiry (juiz Robert Owen, 2016, §10.16); lista SDN do Tesouro dos EUA; comunicados do Kremlin, do Itamaraty e do governo chinês; ANP.

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