Boneca negra é alvo de violência para desestressar na China
Uma boneca negra chamada Natasha, vendida na China como brinquedo para aliviar o estresse, gerou forte indignação nas redes sociais do país. Vídeos compartilhados na internet mostram consumidores agindo de forma violenta e abusiva contra o produto, que tem formato de bebê.
Nas gravações, usuários esticam, pisam, perfuram e esfaqueiam o brinquedo. Há também registros de pessoas fazendo gestos de cunho sexual e pintando o rosto da boneca com pó branco. As ações causaram uma onda de denúncias e debates sobre o comportamento dos clientes.
Críticos na plataforma Weibo, equivalente ao X, apontaram que o produto carrega um “triplo fardo” de vulnerabilidade, por representar bebês, mulheres e negros. Internautas classificaram o conteúdo como racista e alertaram que as cenas simulam maus-tratos reais contra crianças.
Originalmente, a proposta do brinquedo é ser um objeto maleável, preenchido com areia ou gel, para ser manipulado em momentos de ansiedade. O item viralizou após um vídeo de sua deformação fazer sucesso, mas a imprensa local alerta para os riscos desse comportamento.
Um produtor de conteúdo de 37 anos batizou a boneca com o nome de Natasha para criar vídeos simulando como se a boneca fosse sua filha em cenas do cotidiano. A intenção era rebater a pressão da família sobre ele se casar e ter filhos. Na cena que viralizou, a mãe do jovem se irrita, pega a boneca, joga-a no chão e a pisoteia, enquanto ele reage de maneira exagerada e caricata à cena.
Apesar da repercussão negativa, a boneca continua disponível em grandes sites de comércio eletrônico, como o Taobao, custando menos de R$ 10. As fabricantes destacam a resistência do material, e a versão marrom chegou a registrar mais de 100 mil vendas em fábricas.
Órgãos de fiscalização em províncias chinesas já recolheram lotes do brinquedo em lojas físicas após detectarem irregularidades técnicas. A retirada ocorreu devido à falta de laudos de segurança e à origem desconhecida do material usado na confecção do plástico. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo.
A psiquiatra brasileira Ana Beatriz Barbosa, que tem 7 milhões de seguidores no Instagram, reagiu à polêmica e alertou sobre os perigos de associar a figura de um bebê a agressões e descarga de estresse. A especialista também destacou o fato de a boneca ter a pele negra.
— Um bebê simboliza vulnerabilidade, dependência, cuidado e proteção. Quando essa imagem é transformada em objeto para descarregar agressividade, provocar risadas e conquistar audiência, existe uma mensagem sendo normalizada: a de que a violência contra alguém pequeno e incapaz de se defender pode ser divertida. (…) A questão racial também não pode ser ignorada. Quando a imagem escolhida repetidamente para ocupar esse lugar é a de uma criança negra, precisamos perguntar o que essa escolha revela sobre empatia, preconceito e desumanização — disse.
Outro ponto de atenção destacado pela dra. Ana Beatriz é como o limite do absurdo tem ficado cada vez mais amplo na internet.
— Até que preço estamos dispostos a nos vender por curtidas e seguidores? As redes sociais criaram um ambiente no qual o choque, a humilhação e a indignação podem ser recompensados com alcance, e, nessa disputa pela atenção, os limites vão sendo ultrapassados pouco a pouco. O que ontem parecia absurdo, hoje precisa ser ainda mais extremo para continuar atraindo olhares — concluiu a especialista.
pleno.news

Nenhum comentário:
Postar um comentário