Terremotos impõem novo golpe à Venezuela com custo de US$ 6,7 bilhões
Os dois terremotos que atingiram a Venezuela na última quarta-feira devem provocar prejuízos de ao menos 6,7 bilhões de dólares, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Os tremores, considerados entre os mais intensos já registrados na América Latina, atingiram um país que ainda tenta se recuperar de anos de colapso econômico, hiperinflação e instabilidade política. O desastre representa um novo golpe para uma economia fragilizada e amplia a dependência da ajuda internacional.
O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, informou neste domingo, 28, que o número de mortos subiu de 1.430 para 1.450. Além das vítimas fatais, há 3.150 feridos e 12.721 famílias diretamente afetadas. Segundo ele, o governo também prestou assistência a 73.937 grupos familiares e distribuiu cerca de 7 mil toneladas de alimentos. Apesar da atualização das mortes, as autoridades seguem sem divulgar o número oficial de desaparecidos. A ONU estima que aproximadamente 50 mil pessoas ainda não tenham sido localizadas.
Em Caracas, painéis eletrônicos exibem fotografias de desaparecidos enquanto familiares percorrem hospitais, abrigos e áreas destruídas em busca de informações. Na região costeira de La Guaira, uma das mais afetadas, bairros inteiros foram reduzidos a escombros. Milhares de socorristas, voluntários e parentes das vítimas trabalham ininterruptamente na esperança de encontrar sobreviventes.
As operações de resgate ganharam reforço de equipes internacionais, mas moradores reclamam da lentidão da resposta oficial. Cães farejadores vasculham os escombros, enquanto helicópteros e aeronaves americanas V-22 Osprey sobrevoam as áreas devastadas.
“Não temos apoio para retirar nossos familiares. Sozinhos, não conseguimos”, afirmou Héctor Aguilera, de 60 anos, à AFP. Quatro parentes dele ficaram soterrados sob um edifício que desabou. Dois foram encontrados mortos.
“Sabemos que eles morreram, mas seguimos aqui esperando uma resposta das autoridades. Não temos mais esperança. O que me restam são as lembranças”, disse.
La Guaira, localizada a cerca de 40 quilômetros de Caracas, voltou a viver uma tragédia semelhante à registrada em 1999, quando chuvas e deslizamentos deixaram mais de 10 mil mortos. Imagens aéreas feitas pela AFP mostram edifícios completamente achatados e outros severamente comprometidos por rachaduras, sem qualquer condição de uso.
Segundo a ONU, quase sete milhões de pessoas podem ser afetadas pelos terremotos. Os prejuízos estimados em 6,7 bilhões de dólares — cerca de 34,6 bilhões de reais — equivalem a aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.
Como a Venezuela chegou a esse cenário?
A devastação provocada pelos terremotos ocorre em um momento especialmente delicado para a Venezuela. Embora detenha a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, o país tornou sua economia excessivamente dependente da commodity. Durante décadas, o petróleo respondeu por mais de 90% das receitas de exportação, deixando as contas públicas vulneráveis às oscilações do mercado internacional.
Quando o preço do barril despencou em 2014, o governo perdeu sua principal fonte de divisas. O impacto foi potencializado por elevados gastos públicos, controles de preços e de câmbio, queda dos investimentos e redução da capacidade produtiva da estatal PDVSA. O resultado foi uma das piores crises econômicas da história recente.
Entre 2013 e 2021, o PIB venezuelano encolheu drasticamente, enquanto a hiperinflação destruiu o poder de compra da população. Em 2018, a inflação anual ultrapassou 65.000%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O quadro também foi agravado pelas sanções impostas principalmente pelos Estados Unidos ao setor petrolífero.
Nos últimos anos, alguns indicadores voltaram a melhorar. A inflação perdeu força, parte dos controles econômicos foi flexibilizada e a produção de petróleo mostrou recuperação. Ainda assim, a renda per capita permanece muito abaixo dos níveis registrados antes da crise, a infraestrutura segue deteriorada e grande parcela da população vive em situação de pobreza. Mesmo em períodos de alta do petróleo, como durante a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, a produção venezuelana continuou distante dos patamares históricos.
A situação se agravou ainda mais em 2026, após a intervenção militar liderada pelos Estados Unidos que culminou na captura de Nicolás Maduro e na instalação de um governo interino comandado por Delcy Rodríguez. A instabilidade política ampliou os desafios para a reconstrução econômica e institucional do país.
Reconstrução será longa
Além do enorme custo financeiro, a destruição impôs uma pressão sem precedentes sobre a infraestrutura venezuelana. Segundo Jorge Rodríguez, 38 hospitais, 44 centros comerciais e 1.645 obras de infraestrutura, entre pontes e rodovias, sofreram danos. Ao todo, 2.501 construções foram afetadas.
O UNICEF estima que 1,8 milhão de pessoas tenham sido impactadas pelos terremotos, incluindo aproximadamente 680 mil crianças. Segundo o representante da agência no país, Manuel Rodríguez Pumarol, hospitais operam acima da capacidade, milhares de crianças não têm acesso regular à água potável e diversas escolas ficaram inutilizadas.
Em parceria com o governo venezuelano, a ONU e outras organizações humanitárias, o UNICEF lançou um plano para atender cerca de 650 mil pessoas, incluindo 234 mil crianças, nas áreas de saúde, nutrição, água, saneamento, proteção infantil e educação. Para isso, a agência calcula serem necessários 52 milhões de dólares, montante que integra um apelo humanitário de 137,6 milhões de dólares para 2026.
Até o momento, o UNICEF já destinou 3,5 milhões de dólares de seus fundos de emergência para o envio de equipes e suprimentos. Paralelamente, a Venezuela recebe apoio de 2.624 socorristas estrangeiros, 137 cães de busca, 49 veículos especializados e 84,4 toneladas de equipamentos, medicamentos e insumos médicos enviados por diversos países.
“Recebemos todos com gratidão e de braços abertos. Não fizemos qualquer distinção. Qualquer país ou organização que se oferece para ajudar recebe imediatamente uma resposta positiva”, afirmou Jorge Rodríguez.
A dimensão da tragédia indica que a recuperação da Venezuela deverá levar anos. Além dos bilhões de dólares em prejuízos materiais, o país enfrenta o desafio de reconstruir cidades inteiras em meio a uma economia ainda fragilizada e a uma das maiores crises humanitárias do continente.
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