PF aponta que dinheiro desviado da saúde seria destinado à campanha de Allyson
A Polícia Federal apontou que valores desviados por meio de um suposto esquema de fraudes em contratos da saúde pública no Rio Grande do Norte teriam como finalidade o financiamento de futuras campanhas eleitorais. A informação consta em decisão judicial da Operação Mederi, obtida pelo jornalista Dinarte Assunção, do Blog do Dina.
De acordo com o documento, os investigados estariam a arquitetar a acumulação gradual de recursos ilícitos, oriundos de pagamentos indevidos, com o objetivo de utilizá-los em campanhas políticas futuras. Entre as possibilidades mencionadas nas investigações estão campanhas do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, citado como potencial candidato ao Governo do Estado, e do vice-prefeito Marcos Medeiros.
As informações constam de diálogos interceptados e transcritos na decisão judicial, nos quais os investigados discutem a estratégia de reservar parte dos valores desviados, em vez de realizar repasses imediatos, visando à formação de um montante para uso eleitoral.
“Matemática de Mossoró”: esquema previa divisão fixa de propinas
Na mesma decisão, a Justiça detalha um dos pontos mais sensíveis da investigação, descrito pelos próprios envolvidos como “Matemática de Mossoró” — expressão utilizada para definir a forma como os valores desviados eram calculados e repartidos dentro do suposto esquema criminoso.
Segundo o documento, diálogos interceptados entre empresários da empresa DISMED revelam, de maneira objetiva, a divisão das propinas. Em uma das conversas transcritas, o sócio Oseas Monthalggan afirma que 15% dos valores desviados seriam destinados a “ALLISSON”, referência que a investigação associa ao prefeito Allyson Bezerra.
A decisão judicial aponta ainda que, em determinado áudio, os investigados detalham que, de um lucro estimado em R$ 130 mil, cerca de R$ 100 mil seriam separados para pagamentos ilícitos. Desse montante, 10% ficariam com uma pessoa identificada como “Fátima”, enquanto os 15% restantes seriam destinados ao prefeito, restando apenas R$ 30 mil para a empresa — valor que motivava reclamações entre os sócios quanto à baixa margem de lucro.
O documento descreve também o modus operandi do esquema: a Prefeitura emitia ordens de compra no valor de R$ 400 mil, mas a empresa fornecia efetivamente apenas R$ 200 mil em medicamentos. O valor pago por produtos não entregues seria utilizado para sustentar o lucro empresarial e o pagamento das comissões ilícitas aos agentes políticos.
Para a autoridade policial citada na decisão, esse mecanismo coincide com irregularidades semelhantes já identificadas pela Controladoria-Geral da União (CGU) em outros municípios, envolvendo pagamentos por insumos de saúde não fornecidos.
Conversas citam reserva de propina para projetos políticos
Segundo a decisão, as conversas indicam que parte da propina, mencionada em valores que chegariam a R$ 100 mil, deveria ser separada para fins eleitorais. Em um dos trechos citados, um dos investigados sugere a retirada gradual do dinheiro ilícito, com a finalidade de entregá-lo posteriormente como apoio financeiro a campanhas.

Para a Justiça, o conteúdo dos diálogos demonstra que os envolvidos tinham ciência do cenário político local e estruturavam as supostas ações ilícitas considerando a sucessão eleitoral.

A decisão aponta que a destinação dos recursos desviados da área da saúde teria como finalidade a manutenção e o fortalecimento do grupo político no poder por meio de financiamento irregular de campanhas.
Na mesma decisão, a autoridade policial coloca Allyson Bezerra e o vice-prefeito Marcos Medeiros no topo da estrutura criminosa investigada, apontando que a anuência da cúpula administrativa seria fundamental para o funcionamento do esquema.
O documento ressalta que essa conclusão se baseia na posição hierárquica dos gestores e no controle final sobre contratos e pagamentos.
A investigação também destaca a dimensão financeira do suposto esquema. Dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE/RN), citados no inquérito, indicam que a Prefeitura de Mossoró transferiu mais de R$ 13,5 milhões à empresa DISMED entre os anos de 2021 e 2025, considerada a principal beneficiária dos contratos sob apuração.
De acordo com a decisão judicial, no nível intermediário da organização estariam secretários e gestores administrativos, responsáveis por garantir as condições institucionais para a execução dos contratos.
Já no nível operacional, fiscais e gestores de contrato teriam viabilizado pagamentos por materiais não entregues ou fornecidos de forma irregular, mediante atestados falsos.
A Justiça avalia que o volume de recursos públicos envolvidos, aliado à estrutura organizada descrita na investigação, justifica as medidas cautelares adotadas, como mandados de busca e apreensão e bloqueio de bens. O prefeito Allyson Bezerra nega qualquer envolvimento com as irregularidades investigadas.
BNEWS Natal


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