A MELHOR AMIGA
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Por
Ricardo Sobral, advogado.
Muito já se escreveu sobre a
figura da melhor amiga. Cabe aos doutores em ciências aplicáveis à espécie
explicar o fenômeno. Limito-me, pois, como tristemunha
ocular, contar um causo que se assucedeu, e não foi no vale do Assu. Os
nomes são tão verdadeiros quanto uma nota de mil reais. É bom para todos que assim seja.
Moema é morena, cor de
jambo, cabelos pretos e lisos, olhos de jabuticaba, elétrica, direta e
objetiva. Alba é loira, cabelos cacheados, olhos claros, fugidios, gestos
lentos, estudados. Uma é para a outra a melhor amiga. Estudam juntas desde a
primeira escolaridade até a universidade. As outras têm inveja das duas e de tão bonita amizade.
Aos vinte e sete anos, experientes, pré-balzaquianas, não têm segredo uma para
a outra e pode se afirmar que até então viveram juntas os momentos mais
importantes de suas vidas, além decompartilharem quase tudo, exceto escovas de
dentes e namorados.
- Alba, amiga, não te conto.
- Diga logo, mulher, não
faça arrodeio . Quer me matar, é? - disse Alba rindo.
- Preciso desabafar, tem que ser com você,
minha melhor amiga – Afirmou Moema bem baixinho, com receio de ser ouvida,
embora não existisse ninguém por perto.
- Lá vem você outra vez, já
sei, o namorado apresentou defeito de fábrica e você o despachou.
- Não. Pelo contrário, estou
apaixonadíssima. Mais que isso, amiga, jamais pensei, nem nos meus devaneios de
adolescente, que existisse nesse mundo um homem como Raul. Simplesmente é o máximo! Não preciso dizer
mais nada. É o máximo!
Quando juntas, Moema só tem
palavras para enaltecer o namorado, cuidando sempre de acrescentar um novo
dote. O que não varia é o final do elogio: o máximo!
Amiga íntima, fiel,
solidária e inseparável, até que Alba procura com todas as suas forças exorcizar
o fantasma da melhor amiga dizendo - Raul é o máximo!
Desgraçadamente, não consegue.
Ao contrário, a lembrança vira sonho; o sonho convola-se em desejo, e o desejo
mina suas resistências, sente que já não se governa. Ajoelha-se em cima de
caroços de milho, reza profundamente, faz promessa, jura fidelidade à amiga,
chora, faz plano de viajar, quem sabe uma temporada no exterior não tiraria do
seu ser o “máximo” de Moema?
- Meu Deus, não posso fazer
isso com Moera. Afinal, é a minha melhor amiga. Me ajude.
Por certo Deus não ouve os
seus gritos de socorro, embora sinceros e tronitoantes.
Moema não tarda observar que
se operara uma mudança radical em Alba. Agora, é outra pessoa, praticamente
irreconhecível. Raul também mudara, rareia cada vez mais; e, quando presente,
alheia-se; revela-se um enfadonho e contumaz queixoso de enxaquecas
intermitentes.
Quando Moema descobrea dupla
traição chora initerruptamente por quatro noites e quatro dias sem se alimentar. Só
água, nem caldinho desce. Pensa que vai
morrer de tanta dor; dor que jamais sentira, que sequer sabia existir. Sua melhor amiga, mais que o
namorado, havia lhe roubado a alegria de viver. Não sorria mais; não frequenta
salão, não se maquia e pouco compra roupas. Vira um Dom Casmurro de Machado de
Assis.
E assim vive por três
intermináveis anos. Mas, como não há bem que sempre dure, nem mal que seja
eterno, um dia sente-se curada, fortalecida. Dá a volta por cima. Apaixona-se
ainda mais. Beatriz, que assumira o lugar de Alba, notou:
- Amiga, você me esconde alguma coisa. Esse andar sacudido,
esse sorriso tipo rio cheio - de barreira a barreira - e essa pele sedosa
querem dizer o que?
- Ah! Nem te falei, amiga,
pois acheique não valia a pena falar.
Não vai dar certo mesmo. O Rogério não é
o meu tipo, e seu desemprenho não pode ser considerado nem mesmo satisfatório.
A duras penas, Moema aprendera
a lição. Depois, cachorro mordido de cobra tem mede de linguiça.
Preserva o namorado e a
melhor amiga.
Até hoje Beatriz, como melhor amiga de Moema, só não entende uma coisa só: porque Moema
continua com Rogério.
Um comentário:
grande romancista; Ricardo Sobral.
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