quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

AS ÚLTIMAS HORAS DO MILICIANO CAPITÃO ADRIANO DA NÓBREGA

Objetos indicam como foram as últimas horas do ex-capitão Adriano da Nóbrega na Bahia

Casa onde Adriano da Nóbrega trocou tiros com a polícia, na Bahia, tem sete janelas e portas na frente e nos funtos Foto: Marcos NunesA casa no interior da Bahia onde o miliciano mais procurado do Rio acabou sendo morto, no último domingo, revela um pouco como foram seus últimos momentos. Nesta quarta-feira, manchas de sangue ainda podiam ser vistas no imóvel, que, segundo a polícia do estado, passou por uma perícia horas após a ação. Apesar disso, vários pertences de Adriano permaneciam no local.

Adriano passou cinco dias em uma fazenda e, na noite de sábado, saiu às pressas para um sítio, localizado a aproximadamente oito quilômetros de distância. Na casa dessa propriedade, tudo reforça que a mudança foi de improviso. De comida, só havia 12 pães, deixados sobre a mesa da sala ao lado de uma garrafa térmica vazia. Em um quarto, roupas e remédios estavam espalhados pelo chão.

Adriano teria passado sua última noite dormindo em um colchão velho. No quarto, chamava a atenção, ontem, uma camiseta com a inscrição “vaqueiro & caveira & rico & meu tio”. Havia ainda outras poucas peças de roupa, além de vidros de vitaminas e alguns medicamentos, como um analgésico e um anti-inflamatório. Também foi encontrado no cômodo o livro de autoajuda “As 48 leis do poder”, do escritor americano Robert Greene.

A maior mancha de sangue estava na sala. Numa das janelas, o único indício de tiroteio: um buraco, que aparenta ser de bala. Um sofá e uma cadeira revirados também davam a impressão de que houve um confronto na residência.

O promotor Dário José Kist esteve ontem com PMs e policiais civis no imóvel. Alguns dos agentes haviam participado da ação de domingo. Um deles, inclusive, usava uma touca ninja.

—Estamos investigando o que aconteceu aqui. Fizemos uma espécie de inspeção visual para tirar dúvidas. Os indícios apontam que houve uma operação para cumprir um mandado de prisão e que o Adriano resistiu. Um escudo que era usado por um dos policiais foi atingido por um disparo. O equipamento já foi submetido a uma perícia — disse o promotor.

Adriano foi atingido por dois disparos, no peito e perto do pescoço. O imóvel onde ele estava pertence ao vereador Gilsinho da Dedé, do PSL de Esplanada. Ele alegou que seu sítio foi invadido pelo ex-capitão do Bope e afirmou que não o conhecia.

Advogado: Adriano queria negociar apresentação

Horas após a morte de seu cliente, Catta Preta disse, no domingo, que Adriano sabia que estava sendo caçado por policiais da Bahia e do Rio. Outro advogado afirmou ao GLOBO ter sido procurado por um amigo do ex-capitão do Bope, que, segundo o emissário, pretendia se entregar por temer ser alvo de uma “queima de arquivo”. Pedindo anonimato, ele contou que foi contatado na última quinta-feira e propôs um encontro com o miliciano perto do Fórum do Rio, onde pretendia apresentá-lo a um juiz. Mas, segundo o advogado, Adriano não conseguiu armar um plano para sair em segurança de Esplanada.

Procurados para comentar o assunto, promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio afirmaram que estiveram três vezes com advogados de Adriano e não foram informados sobre um eventual desejo do miliciano de se entregar.
Mulher foi revistada

Mulher de Adriano, Júlia Emília Mello Lotufo foi parada e revistada por agentes da Polícia Rodoviária Federal na noite de sexta-feira, após sair de Esplanada em direção ao Rio. A abordagem aconteceu na BR-116, na altura de Vitória da Conquista, e ela, que estava sendo monitorada por investigadores, telefonou para o ex-capitão do Bope em seguida. A informação foi divulgada ontem pelo site da “Época”.

Júlia estava numa picape com as duas filhas. A placa do veículo era conhecida por investigadores, e um alerta foi disparado. A mulher de Adriano seguiu viagem porque não há mandados de prisão em seu nome. Ele, no entanto, teria ficado muito nervoso ao saber da abordagem. No dia seguinte, mudou de esconderijo.

Nascida na Zona Norte do Rio, Júlia foi apresentada a Adriano por um amigo em comum. Assim como a ex-mulher e a mãe dele, ela trabalhou na Assembleia Legislativa do Rio, entre 2016 e 2017. Com um salário de cerca de R$ 3.600, foi nomeada para o setor de recursos humanos pelo então presidente da Casa, Jorge Picciani. No ano seguinte, foi exonerada.

O Globo

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