Produção de pólen vira fonte de renda para apicultores de Ceará-Mirim
Rico em vitaminas e minerais, o pólen apícola é considerado um dos alimentos mais completos da natureza pelas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que trazem benefícios diversos à saúde. Cada vez mais procurado para consumo, o item tem se tornado uma importante fonte de renda para 13 produtores da Associação de Apicultores e Apicultoras da Agricultura Familiar do Projeto Santa Águeda II (Apafase), em Ceará-Mirim, na Região Metropolitana de Natal. O grupo é o único no Rio Grande do Norte a trabalhar com a produção de pólen atualmente, item que pode ser consumido com alimentos como iogurte, coalhada e salada de frutas.
Com apoio do Sebrae, para a grande maioria dos produtores a atividade se encontra em fase de investimentos, com foco na ampliação de enxames. Mas há aqueles que já conseguem tirar do pólen o sustento para si e para as próprias famílias. A organização dos trabalhadores em torno da Apafase, alinhada à capacitação e ao melhoramento genético das abelhas, contribui para o desenvolvimento dos apiários e da extração do item no assentamento Projeto Santa Águeda II, que conta com cerca de 450 habitantes e está localizado a aproximadamente 20 quilômetros do centro da cidade.
Alexandre Oliveira, 33, presidente da Apafase, é um dos produtores de maior destaque da comunidade. Ele começou a trabalhar com a criação de abelhas há cerca de sete anos, com vistas à produção de mel. A ideia de trabalhar com pólen apícola surgiu depois de ele acompanhar alguns vídeos sobre o tema na internet. “No começo, a gente pegava abelha no mato, não tinha nem apiário. Me lembro quando fomos fazer a primeira colheita de mel, eu e meu sócio, Igor, que está comigo até hoje. Somente ele tinha EPI, um macacão que a gente ganhou. Levei muita ferroada, foi muito arriscado. Conseguimos extrair 20 litros de mel. Vendemos a R$ 25 cada litro e começamos a investir no apiário”, conta.
Do começo difícil até os dias de hoje, inclusive com a mudança no foco da produção – de mel, os dois passaram a apostar no pólen – foi uma longa trajetória, mas que começa a mostrar resultados importantes. Atualmente, são coletados cerca de 35 quilos do produto, os quais garantem uma renda de cerca de R$ 3 mil para o produtor. “O aumento da produção me permitiu deixar um emprego de carteira assinada depois de 14 anos trabalhando como soldador. O pólen é o ouro das flores na apicultura”, afirma Oliveira.
Com o bom desempenho, o apicultor aposta na expansão do número de enxames, com projeção de praticamente dobrar a renda atual até 2027. “Tenho 90 caixas de abelha. Até o próximo ano, vou aumentar essa quantidade para 250. Com isso, espero ganhos na casa dos R$ 5 mil”, pontua.
Uma prova do quanto a produção tem se desenvolvido é a criação da marca Apiário Fazenda Doce Mel, que leva o nome da fazenda de Alexandre, onde estão instalados os enxames dele.
Melhoramento genético impulsiona a produção
De acordo com Nilson Dantas, analista técnico do Sebrae/RN, os apicultores do Projeto Santa Águeda, em Ceará-Mirim, recebem mensalmente três horas de consultoria de campo, com orientações voltadas ao manejo adequado dos enxames, alimentação das colmeias, sequenciamento produtivo e troca de cera, para garantir maior qualidade e produtividade, a fim de fortalecer a atividade na região.
“Agora, estamos avançando também para uma nova etapa, com foco no melhoramento genético, por meio da utilização de abelhas rainhas fecundadas, o que deve elevar ainda mais o desempenho da atividade. Ceará-Mirim possui um diferencial muito importante, que é a grande presença de coqueirais, criando um ambiente extremamente favorável para a exploração do pólen apícola”, explicou Dantas.
De acordo com Alexandre Oliveira, da Apafase, a grande procura pelo pólen se dá por conta da diversidade de plantas da região, o que confere sabor especial ao produto. “As empresas, para onde vai a maior parte da nossa produção, nos procuram muito por causa da diversificação da florada que existe aqui e que nos garante o pólen silvestre, de sabor muito agradável. As abelhas campeiras de uma única colmeia visitam plantas diferentes, captando pólen de diferentes cores. Na prática, o pólen silvestre é a reunião de grãos de variadas flores”, explica Oliveira.
“Outro tipo bastante aceito no mercado é o pólen de coqueiro, porque é muito fino e leve. Nossa região é muito rica em coqueirais. Isso garante uma produção o ano inteiro”, acrescenta o apicultor.
Um segundo fator que tem contribuído para a produção é o melhoramento genético das abelhas, desenvolvido em alguns apiários da associação. Jailson Medeiros, 43, é aplicultor e atua no suporte técnico a um dos produtores, mas pretende ele próprio produzir pólen em breve. De acordo com Medeiros, nem todas as abelhas possuem direcionamento para a produção de pólen, por isso é necessário fazer o melhoramento.
“Em algumas colmeias é possível extrair uma média de 75 a 80 gramas [de pólen]. Em outras, é possível coletar bem mais, 160 gramas, mas há aquelas onde dá para extrair apenas 20 [gramas]. Isso depende do tamanho da colmeia e também da condição genética. Cada abelha tem um direcionamento para uma produção específica. Enquanto algumas são mais inclinadas ao mel, outras têm melhor direcionamento para o pólen ou o própolis”, diz Medeiros.
Com o melhoramento, de acordo com ele, é possível padronizar o apiário, algo que é feito em quatro ou cinco ciclos. Para isso, Jailson observa as colônias que mais armazenam pólen, selecionando-as para reprodução. “Os zangões melhorados geneticamente para o pólen vão fecundar as abelhas para gerar um alto índice de produtoras”, diz.
Além disso, o melhoramento genético tem como objetivo uma colmeia mais higiênica e menos defensiva. “Começamos a adquirir exemplares de abelhas europeias, menos agitadas, de alguns produtores do Sul do País, com material genético melhorado para introduzir junto às africanizadas, mais defensivas”, conta.
A substituição ocorre aos poucos. De modo resumido, as abelhas europeias foram gerando zangões que cruzam com as africanizadas, o que fez baixar a defensibilidade do enxame. “Hoje nós temos um plantel que nos permite trabalhar de forma muito mais tranquila. Lembrando que a substituição é feita de maneira gradual, ano a ano”, aponta Jailson Medeiros.
Para o melhoramento, são selecionadas inicialmente 10 abelhas africanizadas de um apiário. Desse total, uma nova seleção escolhe uma única abelha, a mais higiênica, menos defensiva e de alta produtividade para receber as larvas com melhoramento genético.
Nesta abelha, chamada de prévia matriz, é realizada uma enxertia para fecundação, processo que acontece em até 45 dias e permite observar se a genética das novas abelhas é semelhante ao padrão da matriz (a rainha com qualidade genética superior). Se o material genético se repetir, essa nova abelha é selecionada como uma matriz, sendo retirada para um segundo apiário, onde será explorada no processo de melhoramento.
Produção artesanal
Todo o processo de produção de pólen do Projeto Santa Águeda II é feito de modo artesanal – da fabricação das caixas para os enxames ao beneficiamento do produto. Alexandre Oliveira, presidente da Apafase, responsável por iniciar a produção, conta que a primeira caixa construída por ele foi elaborada com tábuas encontradas no lixo e varas retiradas do mato. Com o dinheiro da produção de mel, inicialmente, Alexandre fez diferentes investimentos, até chegar ao padrão atual – o Langstroth, que utiliza madeira comprada em serraria.
O grupo, no entanto, já realiza testes para utilizar material reciclável na fabricação das caixas. “A ideia é usar PVC, que é uma matéria muito descartada na região. Com isso, a gente pretende economizar com a compra de madeira”, afirma Alexandre.
O padrão Langstroth, segundo Jailson Medeiros, garante alta produtividade nos apiários. O nome é uma homenagem ao patrono da apicultura, Lorenzo Langstroth. As colmeias em Ceará-Mirim são adaptadas com uma tela de pouso e uma touca de coleta.
“Essa touca é feita com tela de mosquiteiro, confeccionada pelos produtores. Também confeccionamos a trampa – estrutura feita de PVC com furos de 4,8mm. Esses furos retêm 70% do pólen que vem em bolotas presas nas patas da abelha. O pólen, então, passa pela tela de pouso feita de inox e fica armazenada na touca, de onde a gente recolhe. Tudo que é produzido é vendido para 14 estados – principalmente para Santa Catarina, Ceará e Pernambuco. Para Natal, vai uma pequena parte”, afirma o apicultor.
TN