08/10/2026

TSE PODE TER FECHADO A TAMPA DO CAIXÃO DE PAES NO RJ

TSE anula votos de Garotinho e abre caminho para vitória de Ruas no Rio

O Rio de Janeiro tem um novo governador. A constatação parece óbvia diante do fato de o eleitorado ter se mobilizado, no último domingo, 4, para escolher quem irá comandar o estado nos próximos quatro anos. Nesse caso, porém, a passagem de bastão vem acompanhada de uma necessária ressalva: finalmente. Presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL) irá assumir o leme no Palácio Guanabara depois de mais de sete meses de batalhas jurídicas que se esticaram até mesmo depois da votação.

Nesta quinta-feira, 8, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) escreveu o último capítulo de uma novela que se desenrolava desde a saída do cargo do ex-governador Cláudio Castro (PL), no fim de março. Por 5 votos a 2, os ministros abriram caminho para declarar a vitória de Ruas em primeiro turno, após descartarem os votos de Anthony Garotinho (Republicanos), o terceiro colocado, que concorreu com um recurso ainda pendente na Justiça Eleitoral. “Não há hipótese para a Justiça Eleitoral que não seja interferir no jogo político, porque ela arbitra conflitos políticos”, defendeu o ministro Floriano de Azevedo Marques, relator do caso.

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio ainda precisa fazer a retotalização dos votos, um ato meramente formal. O ministro André Mendonça chamou atenção para a fragilidade da candidatura do ex-governador. “A consideração dos votos anulados sub judice no cálculo dos percentuais inicialmente divulgados não lhes confere validade definitiva, mas preserva a possibilidade de adequação do resultado ao pronunciamento posterior da Justiça Eleitoral”, destacou. Dias Toffoli engrossou o coro: “Mais do que nulos, esses votos são inexistentes e assim devem ser desconsiderados para efeito de contagem”. Acompanharam a maioria Estella Aranha e Kassio Nunes Marques, presidente do TSE. Ficaram vencidos Ricardo Villas Bôas Cueva e Sebastião Reis Júnior.

A decisão se deu após uma surpreendente arrancada do deputado estadual em uma disputa que chegou a ganhar ares de barbada para o ex-prefeito carioca Eduardo Paes (PSD). Ao fim do duelo, no entanto, Ruas, até pouco tempo um ilustre desconhecido, virou o jogo, conquistando 49,27% dos votos ante os 42,76% de Paes, condição que deixou o azarão muito próximo da vitória no primeiro round. Ela só veio porque Garotinho recebeu 274 411 votos, 3,17% do bolo, que passaram a ser considerados nulos. Com isso, o total de votos válidos diminuiu, e Ruas ficou com 50,88% do total. O ex-governador foi condenado por improbidade administrativa, em um caso de desvio de recursos da saúde ocorrido lá atrás, em 2005, e que apenas agora chegou a um desfecho. Com base na Lei da Ficha Limpa, o TSE concluiu que Garotinho, ao contrário do que alegava, só estará apto a voltar à cédula em 2033.

Não houve quem não se surpreendesse com o desempenho de Ruas. Além da discrepância com as pesquisas, a maior entre todas as sondagens realizadas no país, o resultado ilustra a força da onda conservadora que varreu o Brasil, tendo o berço do bolsonarismo como epicentro. Ruas, desde o primeiro momento, apostou na estratégia de colar sua imagem à de Flávio Bolsonaro (PL) e a de se apresentar como jovem da periferia, de onde é egresso. Do outro lado do ringue, Paes tentou associar o candidato do PL à desastrosa gestão Castro, da qual ele foi secretário das Cidades. Valendo-se de um amplo e pragmático arco de alianças composto de nove partidos, o ex -alcaide escalou a petista Benedita da Silva para concorrer ao Senado, ao mesmo tempo em que nomeou Jane Reis, irmã do bolsonarista Washington Reis, como vice.

Os esforços de articulação se revelaram infrutíferos diante de um pleito que tomou fortes contornos nacionais. Paes perdeu no interior e na populosa Baixada Fluminense, tradicionais redutos bolsonaristas, e os votos da capital, que comandou por quatro ocasiões, não foram suficientes para neutralizar a desvantagem. É a terceira – e talvez mais amarga – derrota ao governo do estado do político que nutria a pretensão de chegar ao Palácio do Planalto usando como catapulta a cadeira mais poderosa do terceiro colégio eleitoral do país. “A questão no Rio é que o eleitor acabou votando sem colocar na frente os problemas do estado”, avalia o deputado estadual reeleito Luiz Paulo (PSD), correligionário do ex-prefeito. Nesse cenário, enquanto Ruas se cacifou ao explorar ao máximo a polarização e o antipetismo, Paes fez o que pode para não ser lembrado como “o candidato do presidente Lula”, sem sucesso. Sinal inequívoco da associação de seu nome ao do presidente é o fato de mais de 200 000 pessoas terem apertado 13, o número do PT, e não 55, ao votarem para governador.

A chapa puro sangue de Ruas revela-se vantajosa também na hora de compor o governo. “Entendemos que não precisamos recompensar o Centrão”, diz um aliado. Ele já começa a ser procurado por antigos parceiros do PP e do União que haviam se mantido neutros no processo, ávidos por cargos em troca de apoio. Reeleito deputado federal com a maior votação do estado, Dr Luizinho, presidente do diretório estadual do PP, acena a Ruas. “Aconteceu uma nova onda bolsonarista, que para quem estava na rua não foi surpresa”, reflete sobre o resultado no Rio.






Recém lançado à vida pública, o novo governador recebe o Rio das mãos do desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça fluminense, alçado ao posto em função de uma dupla vacância – o vice de Castro, Thiago Pampolha, foi para o Tribunal de Contas do Estado e o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, afastado do cargo por suspeitas de envolvimento com o crime organizado. Ruas irá herdar uma máquina administrativa sem 6 700 servidores fantasmas, com dívida federal reduzida de 210 para 168 bilhões de reais. “Eu o aconselhei a fazer um governo com cara de futuro. Disse a ele: se não for assim, a política vai te tragar”, revela a VEJA Paulo Vasconcelos, marqueteiro da campanha. Com a caneta na mão, terá como primeira missão escolher entre a boa administração e as velhas práticas do conchavo político.

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