As bestas do apocalipse
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Tem sido fabuloso o inverno brasileiro de 2026. Faz muito frio onde só havia gente ensolarada. Revezam-se em 24 horas as quatro estações do ano. O presidente do Senado e o presidente da República flertam, namoram ou se desentendem não por motivos políticos, mas para ganhar eleição ou dinheiro. O milagreiro agora de chapéu celebrou outra semeadura imaginária e prometeu que será ainda mais farta a colheita sucessivamente adiada desde 2024. Em agosto, garantiu que a picanha para todos estava prestes a descer do palanque em que se esconde desde a campanha de 2022. Até agora só deu as caras em churrascos no Palácio da Alvorada.
Ocorrências espantosas animaram o inverno que vai terminando. Lula vive ensinando que quando um não quer dois não brigam, e que não há guerra que resista a uma conversa regada a cerveja no botequim da esquina. Mas agora anda provocando Donald Trump com desafios que o gringo valentão teme aceitar. Como se viu no desfile de 7 de Setembro, tropas armadas com carabinas, trabucos e facões deixam claro qual é a superpotência militar do subcontinente. É bom não mexer com o Brasil. Se mexerem com o País do Carnaval, aí estão a China, a Rússia, o MST e a agricultura familiar para enquadrar a extrema direita.
Aparentemente insensatos, movimentos na seita lulista apenas reafirmam que, num inverno eleitoral, convém cumprir disciplinadamente as ordens do chefe que tudo sabe e tudo vê. Para que Fernando Haddad reprise em São Paulo o naufrágio de 2022, por exemplo, Lula ordenou à acriana Marina Silva e à a sul-matogrossense Simone Tebet que disputassem vagas no Senado discursando com sotaque de Piracicaba. Ao vice-presidente Geraldo Alckmin coube tornar-se o principal cabo eleitoral de José Dirceu. Janja parece ter guardado para as últimas horas da caça ao voto o trunfo que ensaiou ao longo do inverno: recitar com aquela voz de sessentona tatibitate os dois xingamentos em inglês que conseguiu decorar.
Oitentão, Lula jura manter o tesão dos 30. O que anda piorando neste inverno é a memória do Biden brasileiro. Ele jurou, por exemplo, que nem sabia quem era a facilitadora de negociatas Roberta Luchsinger, comparsa do filho Lulinha. “Nunca vi essa mulher”, garantiu na sabatina na Globo. É possível que o buquê de fotos em que o presidente e a vigarista aparecem juntos seja parte de algum projeto secreto que logo mostrará ao mundo a sofisticação da inteligência artificial à brasileira. Como emergiram mais bandalheiras promovidas em parceria por Roberta, pelo filho Lulinha e por Marcola do Lula, seu chefe de gabinete, Lula pediu de volta a sala ao lado da sua. Mas faz de conta que mal conheceu o concorrente do Marcola do PCC.
Com o estranhíssimo inverno entrando em seu último mês, muita gente imaginou que já vira coisas demais. Esses ignoram que a Era da Corrupção, inaugurada há quase 25 anos pela chegada da seita petista ao poder federal, transformou o Brasil numa espécie de clube dos cafajestes reservado a figurões que se julgam condenados à perpétua impunidade. Nunca faltaram representantes do Legislativo e do Executivo. A entrada de ministros do Supremo no bando dos que topam tudo por dinheiro transformou em questão de tempo o 15 de setembro de 2026.
Daqui a muitas décadas, os brasileiros que tinham neste fim de inverno mais de 15 anos de idade e pelo menos 10 neurônios na cabeça continuarão lembrando com desoladora nitidez o que aconteceu no que deveria ter sido uma sessão extraordinária do STF convocada para tratar dos crimes cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Que Vargas Llosa, que nada. Que García Márquez, que nada. Perto do que se viu e ouviu, os assombros eternizados pelos gênios do realismo mágico são coisa de principiante pouco imaginoso.
No tribunal que existiu até o começo do século, nem haveria caso a julgar: juízes corruptos só agiam nos campos de futebol. O plenário do Supremo era reservado a homens honrados. Se as trapaças da sorte ali infiltrassem um alexandre de moraes ou um dias toffoli, o corpo estranho seria expulso em meia hora pela maioria esmagadora de juristas decentes. Nem precisariam meter-se em patifarias: bastaria abrirem a boca ou redigirem um parágrafo. No documento em que tentou livrar-se das provas e evidências empilhadas pela Polícia Federal, por exemplo, Moraes cometeu mais de 50 atentados à língua portuguesa (veja reportagem “Moraes espanca o idioma”, de Eliziário Goulart Rocha). Não pode mais posar de juiz por ter usado seus poderes ou para tentar manter em atividade a usina de dinheiro sujo administrada por Daniel Vorcaro. Como sofre de um profundo apreço por castigos adicionais, merece ser matriculado num curso de alfabetização de adultos e comparecer às aulas carregando a guilhotina que amputa todos os erres finais de verbos no infinitivo. Ele ainda acha que tem muita gente “pra prendê” e muita multa “pra aplicá”.
Toffoli considerou-se impedido de participar do julgamento. Moraes não viu problema algum em absolver-se, sustentar que o criminoso é o ministro André Mendonça, que ousou divulgar o que a Polícia Federal descobriu ao devassar um celular pertencente a Vorcaro. Moraes, que se considera perseguido por inimigos da democracia, tenta acreditar que não é um cadáver insepulto. Fingem acreditar na fantasia outras três cavalgaduras que, na terça-feira, tentaram matar de vergonha o Supremo e o Brasil decente.
O líder do grupo é o decano Gilmar Mendes. A caminho da aposentadoria, ele exibe o humor de quem vive perdendo a namorada. Também por isso, forma uma dupla afinada com o cinismo debochado do comunista Flávio Dino. Devoto de Mao Tsé-tung até a morte do ditador chinês, Dino aprecia assaltos noturnos a geladeiras e passeios em carros blindados emprestados pelo Judiciário maranhense. Completa o quarteto Cristiano Zanin. O que há na cabeça do novato? Pelo visto, apenas fios de cabelo que, enquanto agonizam, são penteados com muito capricho pelo ex-advogado de Lula.
Os destroços produzidos pela passagem das quatro cavalgaduras do apocalipse transformaram o plenário do STF num terreno baldio que empilha trechos dos Dez Mandamentos, alguns dos sete pecados capitais, páginas rasuradas dos códigos legais, cláusulas de contratos suspeitíssimos e, claro, exemplares destroçados da Constituição. Foram encontradas também duas anotações manuscritas. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”, dizia uma delas. A outra já pertence ao patrimônio popular: “Gilmar: cuide de não encher meu saco”. Talvez coubesse aí um “Vossa Excelência”. Mas só se deve tratar com polidez quem merece respeito. Não é o caso de chicaneiros que fizeram do STF uma instituição agonizante.
revistaoeste




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