16/08/2026

TOGAS EM FRANGALHOS

Togas em frangalhos

Somados os salários mensais e o buquê de penduricalhos, Flávio Dino está dispensado de comparar preços no supermercado, enxugar despesas domésticas, adiar para tempos menos aflitivos a viagem com a família ou queixar-se da gastança irresponsável promovida pelo companheiro Lula. Em março deste ano, ao dar as caras no Maranhão para outro descanso, o primeiro comunista a virar ministro do Supremo poderia poupar indefesos pagadores de impostos de financiar seus caprichos e vontades. Para movimentar-se, por exemplo, poderia usar carros emprestados por parentes ou amigos. Em vez disso, preferiu requisitar um carro blindado pertencente à frota do Tribunal de Justiça do Maranhão. Testemunha dos passeios automobilísticos de Dino e familiares, o jornalista Luís Pablo fez o que deve fazer um profissional da imprensa: noticiou o atropelamento da lei por um juiz togado.

Sei desde a infância que seres decentes não agem como Dino agiu. Nos anos 50 do século 20, em seu primeiro mandato, Adail Nunes da Silva usava com exemplar moderação o Mercury preto do prefeito. Aos sábados e domingos, o carro ficava na garagem. Se o chefe do Executivo municipal estava descansando, não havia razões para desperdiçar combustível. Nos dias úteis, meu pai se instalava no banco do motorista e ligava a ignição só se tivesse de viajar para outra cidade ou visitar algum distrito do município. Ele preferia usar as próprias pernas para deslocar-se entre a casa e o gabinete na prefeitura. Esvaziada a fila formada por ordem de chegada, circulava a pé pelas ruas, conferindo o andamento das obras e das coisas da vida na cidade com 10 mil habitantes. Nos três mandatos seguintes, mudaram o tamanho de Taquaritinga e a marca do carro. Os cuidados com o patrimônio do povo permaneceram. Meu irmão Tato Nunes, duas vezes prefeito, usou menos ainda o carro oficial. Nenhum ocupante do cargo se atreveria a fazer o que fez o ministro nomeado por Lula.

Cidade de Taquaritinga, SP 
Cidade de Taquaritinga, SP

Esse comunista que adora brinquedões de capitalista radical fez mais que desperdiçar dinheiro de patrocinadores involuntários. Também fez de conta que criminoso é um jornalista criticar o comportamento de ministros do Supremo Tribunal Federal e chamou Alexandre de Moraes, que mobilizou a Polícia Federal, que cumpriu um mandado de busca e apreensão expedido pelo Carcereiro da Nação, que achou importantíssimo devassar o conteúdo dos celulares confiscados, que continham mensagens analisadas pela PF, que concluiu nesta semana a montagem do grupo de culpados, que inclui o delegado de polícia aposentado Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, ex-deputado estadual e, nos últimos tempos, principal informante do jornalista que enxergou o rasgão nos fundilhos do manto negro de Dino. Cutrim e Pablo foram imediatamente anexados ao Inquérito do Fim do Mundo, um monstrengo nascido em 2019 e batizado por seus parteiros de “Inquérito das Fake News”. Passados seis anos e meio, é uma espécie de AI-5 da ditadura da toga.

Segundo a Polícia Federal, Pablo deve ser punido porque suas reportagens danificaram interiormente a cabeça de Flávio Dino. Sem revelar o responsável pelo diagnóstico, o relatório enviado ao STF informa que, no momento, uma “perturbação do equilíbrio psicológico” afeta a vítima de notícias verdadeiras. “As publicações fazem parte de perseguição ao ministro”, afirma o documento. “Atos considerados invasivos ou intimidatórios podem provocar medo, sensação de vigilância e abalo à tranquilidade da vítima.” Linhas adiante, o palavrório esclarece que “não é necessário haver dano físico ou material para a configuração do crime de perseguição”. Pelo que afirma o autor da sopa de letras, um juiz comunista é uma pessoa normal até que algum jornalista enxergue irregularidades no que a ilustre vítima assim resumiu: “Um carro blindado foi cedido a pedido da Secretaria de Segurança do STF. Eu e minha família fomos alvo de monitoramento ilegal”.

Ao decretar que a busca e apreensão fosse estendida a Cutrim, Moraes estuprou a cláusula pétrea da Constituição que protege o sigilo da fonte. Ao transferir o julgamento do caso para o STF, o superjuiz violentou as normas que regem o foro privilegiado. Ele sabe disso. Mas faz qualquer negócio para desviar a atenção do país do contrato assinado por sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro bandido, que transformou a mulher do ministro na campeã mundial de honorários advocatícios não prestados. Teoricamente, a fortuna serviria para garantir por três anos os serviços da doutora. Na prática, reduziu o marido a protetor de vigaristas cinco estrelas. A ofensiva da semana passada foi concebida para convencer o país de que a mais truculenta das togas ainda prende e arrebenta. Se ainda lhes restam algumas gotas de juízo, os integrantes da bancada chefiada por Gilmar Mendes andam insones. Ficou claro que o Brasil decente não suporta mais os abusos dos Dinos, dos Moraes, dos Toffolis. É hora de ressuscitar o Estado Democrático de Direito. Quem desonra a instituição tem de cair fora do Supremo.

Flávio Dino em sessão plenária do STF (13/08/2026) 



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