Em 2018, Lula foi condenado por corrupção e preso numa sala-cela da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. De lá, ele coordenou toda a estratégia eleitoral do PT. Escolheu o candidato a presidente da República, organizou as alianças e os palanques estaduais, definiu os postulantes que disputariam posições táticas, sacrificou correligionários por conveniências políticas e deu palpites até na propaganda. Sua rotina incluía visitas diárias de advogados, parlamentares, religiosos, militantes e familiares. Através deles, mandava cartas, recados e distribuía tarefas. Abertas as urnas, o resultado, mesmo diante da situação, não chegou a ser um completo desastre, embora tenha ficado muito aquém daquilo que os petistas esperavam. O partido elegeu apenas três governadores, fez a menor bancada legislativa desde que chegou ao poder pela primeira vez e Fernando Haddad, o candidato a presidente, foi derrotado pelo azarão Jair Bolsonaro. Oito anos depois, com pequenas variações e com os personagens principais em papéis invertidos, a história, ao menos em seu início, se repete.
Hoje é Jair Bolsonaro que está preso. Da Papudinha, complexo penitenciário em Brasília onde cumpre desde dezembro a pena de 27 anos por tentativa de golpe, o ex-presidente escolheu o filho Flávio como candidato ao Planalto, coordena a estratégia eleitoral do PL, seu partido, vai definir os candidatos ao Senado que farão parte da aliança de direita e arbitrar os impasses políticos que surgirem. O modelo de operação da engrenagem também é o mesmo usado por Lula em 2018. Bolsonaro recebe visitas semanais de políticos e familiares e através deles dá ordens e envia recados. Para não deixar dúvidas, quando necessário, escreve cartas e orienta a forma como elas devem ou não ser divulgadas. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, havia uma disputa no partido pela vaga de candidato ao Senado, encerrada depois que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou nas redes sociais uma carta escrita pelo marido. “Adianto que, pelo seu caráter, honra e dedicação enquanto deputado federal, o meu candidato será Marcos Pollon”, sentenciou o ex-presidente, acrescentado que “brevemente” divulgará uma lista nacional dos escolhidos.
Lula, em 2018, também escrevia cartas para anunciar suas deliberações políticas dentro da prisão. Foi dessa maneira que ele confirmou e impulsionou a candidatura à Presidência do ex-ministro Fernando Haddad. “Fui impedido de ser o candidato e estar nas ruas, com o povo, mas o companheiro Hadad (sic) me representa.” Haddad, bacharel em direito, foi nomeado como advogado do ex-presidente e autorizado a visitá-lo todas as semanas, ocasião em que recebia orientações sobre a campanha eleitoral diretamente do mentor. Flávio Bolsonaro, também bacharel em direito, foi incluído recentemente na equipe jurídica do pai. Nessa condição, ganhou o direito a visitar seu “cliente” sempre que quiser. O senador confirma que todas as decisões tomadas pelo PL passam pelo crivo do pai antes de anunciadas. O ex-presidente é uma espécie de última instância do partido, o dono da palavra final, particularmente em relação aos passos do filho. É dele, por exemplo, a orientação para que o senador evite polêmicas, modere o discurso e, neste momento, concentre as críticas no adversário. A estratégia, por enquanto, tem dado resultados.
Jogando parado, com se diz no jargão político, a candidatura de Flávio, que era vista com reservas pelos próprios aliados, se consolidou. Nos últimos dias, cinco institutos divulgaram pesquisas sobre as eleições de outubro. Os resultados são parecidos e, no geral, mostram o senador em ascensão e o presidente da República estável, mas com viés de queda, apesar da intensa visibilidade que o cargo lhe proporciona. No pior cenário para o senador, levantado pelo Datafolha, ele seria derrotado por Lula num eventual segundo turno por uma margem que hoje é de apenas 3 pontos percentuais. No melhor, apresentado pela Genial/Quaest, os dois aparecem rigorosamente empatados. É notícia boa para o candidato do PL e péssima para o petista. “Além de estar aparentemente bem de saúde, senti que Bolsonaro está otimista, sobretudo por causa da situação de Flávio nas últimas pesquisas de intenção de voto. Falamos da situação nacional, sobre a consolidação de Flávio nesses levantamentos e sobre a situação no Mato Grosso”, diz o senador Wellington Fagundes (PL-MT), que recentemente visitou o ex-presidente.
A ascensão do filho tem alterado a rotina de Bolsonaro na Papudinha. A lista de pedidos de visita tem crescido. A agenda já está cheia até o fim de abril. Relator do processo que resultou na condenação e na prisão do ex-presidente, o ministro Alexandre de Moraes autorizou o capitão a receber nos próximos dias assessores dos governos do Rio de Janeiro e de São Paulo, pré-candidatos aos governos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, deputados, empresários e o senador Rogério Marinho. O parlamentar, aliás, planejava disputar o governo do Rio Grande do Norte, liderava as pesquisas de intenção de voto, mas abriu mão do projeto depois de receber o “pedido” de Jair Bolsonaro para que ele coordenasse a campanha do filho. “Um pedido dele é uma convocação, não tem o que fazer”, justifica. Moraes também autorizou a vista de Darren Beattie, assessor de Donald Trump para políticas relacionadas ao Brasil. A visita estava prevista para 18 de março, em meio à intenção dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas — pauta de ampla repercussão eleitoral apoiada pelos bolsonaristas e criticada pelos petistas.
A própria Polícia Federal apontou que Bolsonaro tem uma intensa atividade política dentro da Papudinha. No início do mês, os advogados pediram ao STF a transferência do ex-presidente para o regime de prisão domiciliar, alegando que ele está doente e o presídio não oferece condições adequadas para sua permanência. O ministro Alexandre de Moraes indeferiu o pedido e usou como argumento um relatório policial que destaca, entre outras coisas, que “o apenado tem recebido grande quantidade de visitas de deputados federais, senadores, governadores e outras figuras públicas, comprovando a intensa atividade política”. No domingo 15, Bolsonaro completará dois meses preso no Complexo da Papudinha, para onde foi transferido depois de supostamente ter tentado violar a tornozeleira eletrônica que usava. A rotina na penitenciária é bastante regrada. As visitas ocorrem às quartas e aos sábados, entre 8 e 16 horas, e podem durar no máximo duas horas cada. Na cela, fora as visitas, o ex-presidente assiste televisão, faz exercícios e tem acompanhamento médico permanente.
Em 2018, Fernando Haddad, guiado por Lula, avançou para o segundo turno em desvantagem. Jair Bolsonaro atacava o adversário o chamando de “pau mandado de presidiário” e “marmita de corrupto”. Os estrategistas da campanha do petista avaliaram que a única maneira de reverter a situação era mirar os eleitores que não votaram em Bolsonaro no primeiro turno e também rejeitavam Lula. Era preciso mostrar independência e deixar claro que, se eleito, o ex-ministro teria autonomia e não seria um simples preposto do ex-presidente para comandar o país. Tentando se desvencilhar da pecha incômoda, Haddad decidiu suspender as visitas semanais que fazia a Lula desde o início da corrida eleitoral. Não adiantou. Oito anos depois, a campanha de Flávio enfrentará um desafio muito parecido.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986




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