A mulher que enfrenta Putin e alerta a Europa que russos querem tomá-la
Já ouviu falar em Moldova, Transnítria e Bessarábia? E em Maia Sandu? São nomes de regiões, atuais e antigas, e personagens que nos soam estranhos e remotos, ocupando um território pequeno entre a Ucrânia e a Romênia. Mas aos olhos de Vladimir Putin compõem uma peça importante do xadrez geoestratégico no qual ele é um grande, conquanto perverso, mestre. Do alto de seu 1,57 metro de altura, a presidente da Moldova é um dos maiores obstáculos ao projeto neoimperial da Rússia.
Por causa disso, sofre constantes campanhas de difamação promovidas pela máquina de propaganda russa. A tática usada é chamada de matrioska – como a boneca russa, traz uma informação falsa dentro de outra igualmente mentirosa, com conteúdo absurdo para atrair leitura. Durante a campanha para sua reeleição, circulou uma capa falsa da revista americana OK! dizendo que Maia Sandu havia tentado “comprar esperma ilegal de Elton John ou Ricky Martin” para ter um filho gay.
Além da insanidade em si desse tipo de mentira, ainda havia a insinuação de que Maia, por ser solteira sem filhos aos 53 anos, seria homossexual. Ela já negou isso. Está acostumada ao fogo pesado que vem de Moscou e de oponentes políticos identificados ou cooptados pela Rússia.
Pelo simples fato de ter sido reeleita, infligiu uma derrota ao líder de um país 505 vezes maior, dotado do maior arsenal nuclear do mundo e governado por um homem acostumado a usar todos os métodos para fazer prevalecer sua vontade.
Por causa disso, foi eleita pelo jornal The Telegraph como a líder política do ano – um título que merecia ter ido para María Corina Machado, mas mostra a perspectiva europeia: Nicolás Maduro é um líder que dominou todos os mecanismos de poder na Venezuela, mas não passa de um palhaço falastrão em relação a Putin.
Disse o jornal: “Em três ocasiões ao longo dos últimos catorze meses, o Kremlin tramou para derrotar Maia Sandu nas urnas. Em cada uma delas, ela ganhou, garantindo a reeleição para um segundo e último mandato presidencial, ganhando um referendo apertado sobre a integração à União Europeia e, depois, em setembro, ajudando seu partido a manter a maioria parlamentar”.
Uma derrota também teria implicações importantes para a guerra na Ucrânia e aumentaria a pressão pelo flanco ocidental, onde um território separatista da Moldova – a Transnítria citada no começo – é alinhado com a Rússia. Também redobraria as investidas contra a cidade de Odessa, o porto mais importante da Ucrânia e considerada um ponto de honra pelos russos.
Devido à obscuridade que cerca a região, chamada historicamente de Bessarábia e parte integrante da Romênia, Maia Sandu faz uma campanha constante para que as ameaças russas sobre seu pequeno país de apenas 2,5 milhões de habitantes sejam vistas como parte de um grande plano neoimperial de Putin.
Disse ela: “A Moldova é um dos poucos países que sofreram o amplo espectro dos métodos híbridos da Rússia. Mas o alvo não é a Moldova, somos apenas o campo de teste. O alvo é a Europa e a Europa deveria aprender conosco, com os países que estão na linha de frente da democracia. A democracia no continente está em perigo”.
Sobre a guerra híbrida da Rússia, alertou: estejam preparados para tudo, incluindo desinformação e manipulação por IA, ciberataques, tentativas de provocar violência e protestos manipulados, tudo isso financiado por dinheiro difícil de ser rastreado, proveniente de contas de criptomoedas.
Não é pouca coisa: segundo serviços de inteligência, havia 130 mil moldavos recebendo dinheiro dos russos, um número impressionante considerando-se o pequeno tamanho da população. No dia da eleição presidencial, houve incessantes tentativas de desacreditar os resultados já que, em si mesmos, não podiam ser alterados porque a votação é com voto de papel.
Os alertas de Maia Sandu coincidiram em 2025 com impressionantes declarações de líderes militares da Europa Ocidental avisando que a Rússia já está travando essa guerra híbrida, que pode se transformar, em questão de poucos anos, numa invasão física.
Os alertas desse tipo só tenderão a aumentar em 2026. Maia Sandu, uma economista descrita como a presidente mais pobre do mundo – ganha um salário equivalente a cinco mil reais, viaja na classe econômica, mora num apartamento modesto de dois quartos e se alimenta de comida feita pela mãe -, vai continuar funcionando como sirene.
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