Papa Emérito Bento XVI pede perdão a vítimas de abusos e assume 'erros' durante seu mandato como arcebispo
Duas semanas depois de um relatório apontar que o Papa emérito Bento XVI foi omisso em quatro casos envolvendo abuso sexual de menores quando era arcebispo em Munique, na Alemanha, décadas atrás, ele reconheceu nesta terça-feira que "abusos e erros" ocorreram sob seu comando, mas negou ter agido de má-fé.
“Tive grandes responsabilidades na Igreja Católica”, disse Bento XVI em sua resposta. “Tanto maior é a minha dor pelos abusos e erros que ocorreram nesses diferentes lugares durante o tempo do meu mandato. Cada caso individual de abuso sexual é terrível e irreparável."
O Vaticano emitiu a carta de Bento XVI e um adendo de três páginas em resposta ao relatório divulgado no mês passado sobre abusos sexuais de menores por membros do clero na Arquidiocese de Munique e Freising entre1945 a 2019.
O relatório, encomendado pela própria arquidiocese a um escritório de advocacia, identificou 497 vítimas de abuso durante o período de 74 anos examinado e apontou falhas do então cardeal Joseph Ratzinger em tomar medidas em quatro casos quando foi arcebispo, entre 1977 e 1982.
Observando que pediu perdão à Igreja Católica em suas reuniões com sobreviventes de abuso, Bento XVI, de 94 anos, escreveu: "Compreendi que nós próprios somos levados a cometer uma falta grave sempre que a negligenciamos ou deixamos de enfrentá-la com a necessária determinação e responsabilidade, como muitas vezes aconteceu e continua a acontecer (...). Mais uma vez só posso expressar a todos às vítimas de abuso sexual minha profunda vergonha, minha profunda tristeza e meu sincero pedido de perdão".
No adendo à carta, no entanto, uma análise independente feita por quatro especialistas jurídicos a pedido de Bento XVI contestou as alegações específicas contra o Papa emérito, dizendo que os investigadores descaracterizaram as ações e ignoraram os fatos. Os especialistas jurídicos disseram em sua análise que os investigadores não mostraram que ele conhecia o histórico criminal de qualquer um dos quatro padres em questão.
Ao mesmo tempo em que seus advogados refutavam as acusações específicas a ele, a carta em alemão de uma página e meia de Bento XVI tem um tom pessoal e expressa em termos religiosos reflexões suas sobre uma longa vida que se aproxima do fim.
Em um trecho, Bento XVI se pergunta francamente se ele, como todos os católicos o fazem na missa na oração Confiteor (“Confesso”), deve pedir perdão pele que foi feito e pelo que deixou de fazer "por minha culpa, por minha máxima culpa".
Ele escreveu: "É claro para mim que a palavra 'máxima' não é usada todos os dias e não se aplica a todas as pessoas da mesma maneira. No entanto, todos os dias ela me faz questionar se também hoje eu deveria falar de uma falta mais grave”.
Bento XVI não responde à sua própria pergunta, mas diz que está consolado pelo perdão de Deus. "Em breve, estarei diante do juiz final de minha vida", escreveu ele.
Bento XVI, que renunciou inesperadamente em 2013, também agradeceu ao Papa Francisco pela "confiança, apoio e orações pessoalmente expressos a mim". Ele não deu mais detalhes.
Logo após a publicação do relatório alemão, Bento XVI havia reconhecido que esteve em uma reunião de 1980 sobre um caso de abuso sexual quando era arcebispo de Munique, acrescentando que havia dito erroneamente aos investigadores alemães que não estava lá.
Na época, o secretário pessoal de Bento XVI, o arcebispo Georg Ganswein, disse que a omissão foi resultado de um descuido na edição de 82 páginas de depoimentos que ele enviou aos investigadores, e não foi feita por má fé.
Na carta de segunda-feira, Bento XVI disse: "Para mim, provou-se profundamente doloroso que esse descuido tenha sido usado para lançar dúvidas sobre minha veracidade e até mesmo para me rotular de mentiroso".
O pacote de mídia do Vaticano divulgado nesta segunda-feira incluía vídeos de Ganswein lendo a carta do Papa Emérito em alemão e italiano.
O adendo de três páginas, chamado "Análise dos fatos pelos colaboradores de Bento XVI", foi escrito por três advogados canônicos (da Igreja) e um advogado civil.
O relatório do mês passado sobre abuso em Munique, que identificou quase 500 vítimas de abuso ao longo de quase 75 anos, foi escrito por um escritório de advocacia alemão após uma encomenda da arquidiocese.
O Globo

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