Conheça história de Maitê, primeira advogada trans do RN
Maitê Ferreira, de 24 anos, está a poucas horas de entrar para a história da advocacia no Rio Grande do Norte. Isso porque ela será a primeira advogada trans do quadro de defensores da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Norte. Recém-formada em Direito pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, e atualmente mestranda na área pela mesma instituição, carrega consigo uma história de luta e batalha contra o preconceito, além da aceitação sobre o próprio corpo e suas escolhas. Ela recebe a carteira da OAB na unidade seccional em Mossoró, nesta quinta-feira (08), às 17h.
“Tinha muita incerteza sobre exercer [a profissão], porque eu não conseguia vislumbrar, não conseguia perceber uma mulher trans advogar sabe?” revela à TRIBUNA DO NORTE, salientando ainda o fato de poder ser um exemplo para outras pessoas trans que virão depois dela.
Além do fato de ser a primeira advogada trans na OAB do RN, Maitê também já havia se tornado a primeira mulher trans a obter o bacharelado em Direito da Ufersa, a primeira a ingressar num curso de pós-graduação em Direito na Ufersa e a primeira a ingressar num Mestrado em Direito no interior do Nordeste. Conquistas que Maitê comemora e ao mesmo tempo expõem uma realidade ainda de dificuldades e pioneirismos para as transexuais no RN e no Brasil.
“Eu particularmente não me orgulho. Conto isso porque é ilustrativo. Poxa, nunca teve né? Uma mulher trans no mestrado em Direito, por exemplo. As coisas aconteciam para mim e fui percebendo como eu estava num mundo solitário. É menos empolgante do que você pensa, sabe? Ser a primeira. É mais no sentido de olhar para o lado e não ter ninguém”, conta.
Com a formação ainda em andamento, visto que está concluindo uma especialização e já tocando o mestrado em Direito Constitucional também pela Ufersa, Maitê já tem planos para a carreira de advogada. Entre outras ideias, ela pretende atuar na área da violência contra a mulher e principalmente, na defesa contra a LGBTfobia, esta última recentemente equiparada ao racismo como crime pelo Supremo Tribunal Federal. Ao lado de amigos que também pretendem tirar a carteira da OAB, ela planeja tocar um projeto de assessoria jurídica voltada para esses dois âmbitos da sociedade.
“Se eu for fazer essa história vai ter que partir na iniciativa da força do espírito, porque não tem ninguém para me dar uma mão, faça isso, aquilo. Na verdade, eu não poderia deixar de fazer isso, usar a advogacia como instrumento para defender as mulheres, as minorias, as lésbicas, bis, gays”, conta.
História
Natural de Fortaleza-CE e radicada no RN há nove anos, a história de Maitê Ferreira, que já possui o nome civil, não é muito diferente da maioria das narrativas conhecidas de outras pessoas transexuais. O processo de descoberta de si mesma, revela, começou na pré-adolescência. Aos poucos, foi sentindo e observando que não pertencia àquele corpo que a vida lhe reservara e que precisaria trazer um novo sentido à sua existência.
“Sempre tive uma afinidade muito profunda com o que era feminino. Desde aquelas coisas mais inocentes como vestir a roupa da minha mãe escondida no banheiro. Eu sempre via uma beleza, mas no sentido de pertencimento. Não conseguia ver beleza numa roupa, num comportamento masculino”, conta. Ela acrescenta ainda o fato de ter sido criada numa família só de mulheres, o que estreitou o contato com o universo feminino.
A vinda para as terras potiguares foi justamente para “buscar a liberdade”, uma vez que acabou tendo dificuldades com aceitação dentro de casa. Em Mossoró, pensou em iniciar a carreira em Ciências Sociais, mas acabou optando pelo Direito, que era sua segunda opção no Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Se apaixonou ainda mais pela área e não largou mais. Maitê concluiu o curso no final de 2017 e chegou a atuar ainda como fotojornalista voltado a sindicatos.
Na luta constante contra o preconceito e visando galgar ainda mais espaços para pessoas como ela, Maitê revela ainda algumas de suas inspirações para a carreira que se inicia. Ela cita as três primeiras deputadas estaduais trans do Brasil, como Erica Mulanguinho e Erika Hilton, em São Paulo, e Robeyoncé Lima, de Pernambuco.
TN
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