terça-feira, 25 de agosto de 2020

O 'ESTRELISMO' DO SENADOR

Styvenson: as diatribes do senador valentão

Remetendo à época das abordagens arrogantes que fazia enquanto operador da Lei Seca no Rio Grande do Norte, o agora senador Styvenson Valentim protagonizou na semana passada dois novos episódios que ilustram bem o temperamento dele, nada afeito à disciplina da corporação que o gestou – a gloriosa Polícia Militar.

Mais uma vez dando um show de arrogância, e de boca suja, o capitão-senador foi flagrado de novo – em vídeo e em áudio – arrotando razão, como se dono dela fosse.

Primeiro, a polêmica foi com um prefeito do interior do Estado – Josimar Ferreira, do município de Santo Antônio. Durante uma transmissão ao vivo no Instagram, o senador deixou claro que “não deve nada a nenhum prefeito” e mandou o gestor de Santo Antônio para a “p… que o pariu”.

Tudo isso porque, supostamente, o prefeito não teria sido transparente na prestação de contas de um recurso federal recebido a partir da indicação de Styvenson. Dinheiro este que, segundo o senador, não vai mais ser enviado se o prefeito continuar com o comportamento.

O prefeito respondeu: “Nunca ofendi ninguém e hoje tenho o meu nome em conversinhas e mentiras. Não mereço ver um cidadão qualquer, um senador da República eleito pelo povo do Rio Grande do Norte, me difamando perante a minha terra. Sou um homem simples, semianalfabeto como o senhor falou, mas sempre falando a verdade ao meu povo, diferente do senhor”.

O outro destempero foi gravado em áudio – e vazado nas redes sociais durante o fim de semana. Nele, Styvenson conversa em particular com uma amiga e reclama que a Secretaria de Saúde de Parnamirim estaria dificultando o acesso dele a dados de pacientes beneficiados com exames viabilizados a partir de verbas destinadas por seu mandato em Brasília.

No áudio, o senador de primeira e longeva viagem (já que são oito anos de mandato) se revolta por não ter recebido nome, CPF e endereço dos pacientes. Ele diz que queria as informações para visitar os beneficiados para saber se eles de fato fizeram o exame – e como estão se sentindo.

Ele ameaça, caso não seja atendido em sua vontade, barrar qualquer outro envio de verbas parlamentares para o município – o terceiro maior do Estado.

Tudo isso feito em uma linguagem rasteira, recheada de palavrões, exibindo péssimas credenciais para um político cuja popularidade, desde já, o credencia a voos mais altos na política provincial, como o próprio cargo de governador do Rio Grande do Norte. Com palavrões, Styvenson diz não se interessar com o tipo dos exames realizados (se era de p…, c… ou p… que pariu), mas que quer transparência nos gastos realizados às custas dos R$ 770 mil que ele afirma ter repassado para o município.

A secretária Terezinha Rêgo respondeu que toda a prestação de contas foi feita. Ela disse que, uma a uma, todas as demandas do senador foram atendidas. “Por isso, a atitude do senador muito me surpreendeu, principalmente, pela forma desrespeitosa, o que rechaçamos desde já”, afirmou a secretária.

Ela diz que, de fato, dados pessoais dos pacientes não foram repassados ao senador porque existe uma vedação legal – e um impedimento ético. “Todo o procedimento do SUS é auditado pelo sistema do Ministério da Saúde, o qual o Senador deveria conhecer antes de realizar acusações totalmente infundadas”, declarou Terezinha.

Essa forma paladina de exercer o mandato, na acepção mais clássica da expressão, do herói errante e destemido, de caráter inquestionável e que segue sempre o caminho da verdade, doa a quem doer, tem por vezes revelado um parlamentar arrogante e destemperado, a quem não faltam recursos para consultar o uso correto de verbas parlamentares.

Afinal, tribunais de contas existem exatamente para isso. Ministério Público, no alto da sua atribuição constitucional de fiscal da lei, está aí para isso. E o próprio senador poderia acompanhar o rastro do dinheiro sem necessariamente aviltar o princípio da impessoalidade na administração pública.

Ao proceder dessa maneira atabalhoada e deselegante, o senador passa a ideia equivocada de que o dinheiro é seu, e não que cabe a ele apenas e tão somente encaminhar conforme as demandas que recebe enquanto representante da população.

A despeito de outras formas de fiscalizar a destinação do orçamento, o senador insiste em querer ter acesso aos mínimos detalhes de cada beneficiado, de forma a ter munição para aparecer na porta dos cidadãos para mostrar que foi ele, e não a estrutura do Estado que ele tanto critica e diz que é corrompida, que garantiu o acesso a exames ou qualquer coisa que o valha.

A personalização com que Styvenson Valentim manifesta sua conduta é um erro em si na medida em que fere o decoro de um cargo que lhe deu poder como legislador pelos próximos oito anos. E que precisam ser exercidos com equilíbrio e temperança.

E não é submetendo prefeituras a humilhações antecipadas – municípios estes que dependem fortemente das emendas parlamentares de senadores e deputados federais -, que um parlamentar corrigirá o desequilíbrio significativo entre o cargo administrativo e o poder partidário. Muito pelo contrário.

Agora RN

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