Acesso a crédito dobra entre jovens e acende alerta sobre inadimplência precoce
No extrato bancário, o roteiro se repete: o salário cai, a fatura é paga, o limite é liberado e, em poucas horas, o dinheiro some de novo. Para uma geração que estreia no sistema financeiro com um cartão de crédito antes mesmo de ter renda estável, a promessa de independência virou uma espécie de armadilha silenciosa. O que começou como autonomia, sem precisar pedir autorização aos pais, tem se transformado em um ciclo silencioso de dependência: paga-se a dívida para poder voltar a gastar.
Danielly de Fátima, Everyn Rodrigues e Nathalia Ruhana conhecem, cada um à sua maneira, esse roteiro. Com poucos cliques, tiveram acesso a limites, parcelamentos e até empréstimos antes de conquistar estabilidade financeira. O que apareceu primeiro como autonomia virou, para muitos, uma espécie de teto de vidro: trava planos como financiar uma casa, comprar um carro ou simplesmente reorganizar a vida.
— Hoje estou no looping do cartão: você paga e fica sem dinheiro; paga e fica sem dinheiro de novo — resume Danielly, de 28 anos, estudante de Ciências Sociais.
Dados do Banco Central (BC) mostram que o número de jovens com acesso ao crédito dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024 — números mais recentes disponíveis. Pelo critério do BC, jovens são pessoas de 15 a 29 anos de idade. O avanço foi puxado sobretudo pela população de menor renda: cerca de 70% desses jovens ganham até dois salários mínimos.
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