Farra do Forró: Como funcionava esquema que teria desviado R$ 500 milhões em impostos
BLOQUEIO DE BENS
A operação deflagrada na terça-feira 18 apura ainda suspeitas de
omissão de rendimentos e lavagem de dinheiro. Além do Aviões, outros
três conjuntos de forró são acusados de realizar shows declarando apenas
20% do valor dos contratos. Ao todo, foram bloqueados 163 imóveis e 38
veículos, como Mercedes-Benz, BMWs e Land Rovers, e 32 pessoas foram
conduzidas para prestar esclarecimentos, inclusive Xand e Solange, que
foram ouvidos e liberados. Procurados pela ISTOÉ, eles informaram, em
nota, que estão “à disposição da Justiça”. Se mantiver a agenda, como
divulgado, a banda embarca nesta semana para os Estados Unidos, onde tem
shows marcados em Nova York, Boston e Miami. “Assim como o forró é para
todos, os tributos são propriedade do povo brasileiro”, diz o auditor
fiscal João Batista Barros, superintendente regional da Receita Federal.
“Analisamos os aspectos exteriores de riqueza, como imóveis, atividades
e consumo, e a compatibilidade com o apresentado nas declarações.”
VIDA DE LUXO
Vaidosos, “Solanja”, como é chamada pelos fãs, e Xand adoram as redes
sociais, onde publicam fotos com o “look do dia”, em viagens e compras
(ela vive nas lojas de grife do Shopping Iguatemi de Fortaleza). A
cantora também se orgulha com as cantadas e elogios que recebe por causa
do corpo 50 quilos mais magro, conquistado graças a uma cirurgia
bariátrica feita há oito anos. Xand, que também é sócio de uma
churrascaria, é apaixonado por carros esportivos – no ano passado,
comprou em Recife um Porsche Cayman S, avaliado em R$ 399 mil. Dono de
uma concessionária de automóveis em Fortaleza e amigo de Xand, um
empresário que pediu para não ser identificado, disse que todos os
carros do cantor são financiados e que ele nunca fez nenhuma transação
com dinheiro em espécie. “O Xand é a pessoa mais idônea que pode
existir”, afirma. “Não é ele que administra a banda, ele só canta.”
A delegada Doralucia Oliveira de Souza, que conduziu as
investigações, discorda. “Os artistas são sócios, não são só
empregados”, diz. “É muito complicado pensarmos que eles não tivessem
consciência do que estava acontecendo ali.” No papel, os vocalistas
dividem a propriedade do grupo com os empresários Carlos Aristides,
Zequinha Aristides, Isaías Duarte e Claudio Melo. Recentemente, depois
que Solange ameaçou seguir carreira solo, a cantora aumentou sua
participação de 10% para 25% nos lucros, igualando o percentual de Xand,
e os empresários ficaram com o restante.
O esquema descoberto pela PF funcionava através de contratos
subfaturados de shows, eventos e vendas de CDs e DVDs. Os suspeitos
combinavam o valor com o contratante, mas apenas de 20% a 50% do preço
era pago pelas vias oficiais e declarado ao Fisco. O restante, de acordo
com a investigação, era entregue em dinheiro vivo, pouco antes das
apresentações. No caso do Aviões do Forró, os valores ficavam na casa
dos R$ 160 mil – entre os demais grupos, como o Solteirões do Forró, o
cachê começava em R$ 50 mil. Cada uma das bandas faz, em média, 200
shows por ano. Isso significa que só o Aviões faturava R$ 32 milhões
anuais em shows. Como até 80% do valor era escamoteado, a sonegação pode
ter ultrapassado os R$ 25 milhões. A polícia também suspeita que os
envolvidos lavavam dinheiro comprando imóveis e declarando valores
menores do que os reais, para depois revendê-los pelo preço de mercado.
Além disso, promoviam intensa confusão patrimonial entre pessoas físicas
e jurídicas para driblar a fiscalização. Se depender da “For All”, a
farra acabou.
Época
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