Recondução de Hugo Motta e Alcolumbre é ameaçada pelo PL
O avanço do PL no Congresso desafia a recondução dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a partir de fevereiro. Nas duas Casas, o partido de Flávio Bolsonaro terá as maiores bancadas: na Câmara, foram eleitos 121 deputados, número que supera os 99 atuais; no Senado, serão 28, quase o dobro dos 15 integrantes de agora.
O principal desafio de Motta e Alcolumbre será buscar apoio na direita bolsonarista para tentar ficar mais dois anos no comando ou ao menos evitar que parlamentares do centro migrem para candidaturas desse campo político. As duas autoridades se aproximaram do presidente Lula (PT) nos últimos dois anos, contrariando a oposição ao petista. O resultado das urnas no domingo também pode criar mais dificuldades aos dois: Lula ficou atrás de Flávio no primeiro turno, com 45,16% dos votos, e o senador, 47,03%.
A tendência, hoje, é que os partidos do Centrão deixem a postura de neutralidade e apoiem a candidatura de Flávio. De acordo com relatos, integrantes do União Brasil querem como contrapartida o apoio do PL à recondução de Alcolumbre, cenário considerado improvável. O Republicanos também tende a apoiar Flávio, mas Motta não deverá seguir o partido, de acordo com um aliado próximo dele. A estratégia da sigla será blindar o deputado dessas críticas e evitar que sua nova candidatura à chefia da Câmara desidrate.
A situação de Alcolumbre, no entanto, é mais delicada. Além de ver seus principais aliados no Amapá, seu reduto eleitoral, serem derrotados no domingo, ele está pressionado por parlamentares da oposição, que defendem um discurso contra o Supremo Tribunal Federal (STF), e por governistas, que ainda apresentam desconfiança com a postura do senador.
Alcolumbre foi um dos principais pontos de governabilidade do Lula 3 no Congresso, mas o parlamentar se afastou do próprio presidente e do Planalto após a rejeição de Jorge Messias para uma vaga ao STF. Ele ficou cerca de três meses sem conversar com o petista, retomando o contato às vésperas da eleição. Apesar disso, o PT não deve lançar candidato próprio e integrantes da sigla apostam no apoio a Alcolumbre. A avaliação é que apesar das desconfianças com o senador, há possibilidade maior de diálogo com ele do que um nome bolsonarista.
6 X 1
Petistas também reconheceram um gesto de Alcolumbre ao anunciar que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 será discutida pelo Senado nesta terça-feira, após o primeiro turno. A proposta é considerada uma vitrine eleitoral para o petista. Com o resultado das urnas, a avaliação é que Alcolumbre não recuará, mas poderá dar um ritmo menos célere ao avanço do tema, já que Flávio Bolsonaro se colocou contra o fim da escala 6x1.
Por outro lado, o PL já tem claro que lançará um candidato próprio na disputa com Alcolumbre. O nome mais cotado é Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha de Flávio. Em entrevista na segunda, o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, voltou a tratar do tema e disse que Marinho “é candidato à presidência do Senado”. Ao longo do processo eleitoral, integrantes do PL fizeram campanha para que os candidatos do partido ao Senado já declarassem de antemão que não votariam em Alcolumbre caso eleitos.
As principais queixas recaem sobre a resistência do parlamentar em pautar temas que miram o Supremo e seus ministros. Principalmente, o impeachment de magistrados. Alcolumbre é próximo de integrantes de tribunais superiores, como o ministro Alexandre de Moraes, do STF, desafeto do bolsonarismo. Além de Rogério Marinho, também se coloca como possível candidata a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, .
Na Câmara, Motta foi eleito presidente da Casa em 2025 com apoio do PT ao PL e teve de passar os dois anos de seu mandato buscando se equilibrar entre as demandas de cada um dos partidos. O primeiro ano foi marcado por uma relação de altos e baixos com o Palácio do Planalto e Lula, com desconfiança de parte a parte.
Motta também aproveitou o rompimento de Lula e Alcolumbre para se aproximar do presidente da República. Ele aprovou pautas de interesse do Planalto na Câmara, como o fim da escala de trabalho 6x1, e declarou publicamente apoio à reeleição de Lula, além de participar de atos a favor dele na Paraíba. O presidente da Câmara também atuou para evitar que o Republicanos apoiasse formalmente Flávio no primeiro turno.
Essa aproximação, no entanto, contrariou integrantes do PL, aumentando a pressão interna para que o partido lance um nome para fazer frente a Motta. Um dos lembrados é o líder da sigla, Sóstenes Cavalcante (RJ). Apesar disso, somente a bancada do PL não é suficiente para dar a vitória ao parlamentar, o que indica que outros deputados precisariam acompanhar o nome do PL.
Há a avaliação que, estando na cadeira de presidente da Câmara pelo menos até fevereiro de 2027, Motta terá instrumentos à disposição para atrair esses parlamentares novatos. O tamanho da bancada da federação União Brasil-PP e do próprio partido de Motta, o Republicanos, além dos prováveis apoios do PT e do MDB, são usados como estratégia para pressionar o PL na sucessão do comando da Câmara, ainda que o partido de Flávio tenha saído das urnas com uma bancada expressiva.
A ideia é repetir o que aconteceu na primeira eleição de Motta para comandar a Casa e ameaçar o PL com perda de espaço na Câmara, caso a sigla adote uma posição diferente da maioria dos outros deputados. Nesse cenário, o PL poderia ficar fora da Mesa Diretora, onde ocupa a vice-presidência hoje, e tiraria representantes do partido da divisão do comando de comissões e relatorias de projetos relevantes.
Por outro lado, com 121 deputados e na liderança isolada para a bancada da Câmara, o PL vira um dos principais fiéis da balança na eleição para o comando da Câmara.
O cenário no Senado também costuma entrar na contabilidade das articulações dos partidos, e um apoio do PL a outro candidato na Câmara que não o da legenda pode servir para amarrar um acordo para que a legenda de Flávio escolha um representante no Senado. Isso aconteceu quando o PL apoiou a reeleição de Arthur Lira (PP-AL) para presidente da Câmara em 2023 e, em troca, PP e Republicanos apoiaram Rogério Marinho para o comando do Senado, eleição que foi vencida por Rodrigo Pacheco.
O processo de sucessão no Congresso também deverá ser afetado pelo diálogo com o governo federal. A expectativa é que, qualquer que seja o presidente eleito, os chefes da Câmara e do Senado irão buscá-lo para um acordo nos próximos dias.
TN

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