Entenda a ligação do ministro Gilmar Mendes com a CBF
A eliminação precoce da Seleção Brasileira na Copa do Mundo reacendeu um tema que há anos desperta questionamentos nos bastidores do futebol: a relação entre o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF); seu filho Francisco Schertel Mendes e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O assunto voltou ao debate após Gilmar publicar na última terça-feira (7) uma mensagem nas redes sociais agradecendo aos jogadores pela campanha, defendendo a permanência do técnico Carlo Ancelotti e prestando homenagem a Neymar.
A manifestação, aparentemente protocolar, não passa despercebida diante do protagonismo cada vez maior de Francisco Mendes, filho do magistrado, dentro da CBF. Embora ocupe oficialmente apenas o cargo de vice-presidente da Federação Mato-grossense de Futebol, ele é apontado como um dos homens mais influentes da atual gestão da confederação.
Francisco integra o Comitê Disciplinar da FIFA, exerce forte influência sobre projetos estratégicos da CBF e lidera um grupo de dirigentes conhecido internamente como “turma de Brasília”, responsável por mudanças administrativas e pela articulação para criação de uma liga nacional de clubes.
O CONTRATO ENTRE A CBF E O IDP DE GILMAR
A presença da família Mendes na estrutura do futebol brasileiro começou a ganhar força em 2023, quando a CBF firmou uma parceria de dez anos com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado por Gilmar Mendes e atualmente administrado por seus familiares.
O acordo entregou ao IDP a administração da CBF Academy, braço educacional da confederação responsável pela formação de treinadores, árbitros, dirigentes e gestores esportivos. Pelo contrato, o instituto passou a receber 84% da receita da CBF Academy, enquanto a entidade ficou com os 16% restantes. O vínculo permanece válido e prevê multa milionária em caso de rescisão antecipada.
Na cerimônia de assinatura, Francisco Mendes comparou a parceria entre CBF e IDP às grandes duplas da história do futebol brasileiro, afirmando esperar uma “tabelinha” como Garrincha e Pelé ou Ronaldo e Rivaldo.
AS DECISÕES DE GILMAR SOBRE A CBF
Paralelamente ao contrato, Gilmar passou a atuar em processos decisivos envolvendo a própria CBF. Em janeiro de 2024, o ministro concedeu liminar que devolveu o então cartola Ednaldo Rodrigues ao cargo de presidente da entidade, suspendendo decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que havia determinado seu afastamento. Vale lembrar que foi na gestão de Ednaldo que o IDP virou parceiro da CBF.
A decisão foi alvo de críticas porque, naquele momento, já existia uma relação comercial entre a CBF e o IDP. Gilmar, porém, sempre negou qualquer conflito de interesses. Em uma entrevista ao UOL, ele afirmou que o IDP apenas prestava serviços educacionais à CBF e que isso não comprometia sua atuação no Supremo.
– Não há conflito de interesse em relação a esta questão. O IDP é uma instituição extremamente conceituada no Brasil e no exterior – disse.
A QUEDA DE EDNALDO
Em 2025, entretanto, Gilmar mudou o rumo do processo envolvendo a CBF. Após surgirem suspeitas de falsificação de assinaturas em um acordo utilizado para manter Ednaldo Rodrigues no comando da entidade, o ministro encaminhou o caso ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para apuração urgente.
Dias depois, o tribunal anulou o acordo, afastou Ednaldo da presidência e determinou a realização de novas eleições. Nos bastidores do futebol, dirigentes interpretaram a decisão como um sinal de que Gilmar havia deixado de oferecer sustentação jurídica ao então presidente da CBF.
FRANCISCO GANHA ESPAÇO
Com a saída de Ednaldo, Samir Xaud foi eleito para a presidência da confederação e a influência de Francisco Mendes aumentou. Integrantes ligados ao IDP passaram a ocupar cargos estratégicos na CBF, incluindo nas áreas jurídica, administrativa e de desenvolvimento do futebol.
Segundo uma reportagem do UOL, Francisco tornou-se um dos principais articuladores das reformas conduzidas pela atual gestão, incluindo a implantação do chamado “fair play financeiro” e as negociações para unificação de uma futura liga nacional.
Além da influência exercida na atual administração, Francisco Mendes já é visto nos bastidores como um possível candidato à presidência da CBF no futuro, inclusive com a ampliação de sua articulação junto às federações estaduais por meio da CBF Academy e das reformas implementadas pela atual gestão de Xaud.
Uma reportagem recente do UOL destacou que Francisco caminha para angariar apoio a uma candidatura dele numa eventual sucessão de Xaud como presidente da CBF. Embora não haja manifestação oficial sobre uma eventual disputa, seu nome é visto como um dos sucessores do atual comandante da confederação.

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