12/06/2011

ARTIGO DO PEDRO

A Rua que nascia na Aurora

Esquina da Manoel Varela com Heráclito Vilar


Era por aqui que a aurora se exibia todos os dias, avivando o colorido das casas verdes, amarelas, azuis e rosas. Era aqui que o sol, ainda sonolento, encontrava os cortadores de cana e cambiteiros a caminho das usinas; os feirantes subindo a ladeira a caminho do mercado. Seu Cleto abrindo a porta do “café” com a vontade já formigando de tomar o caminho do “Comum”. Valmir Varela ensaiava a memória da valsa daquela noite. Doutor Canindé voltava da igreja com Maria Leonor, roupa imaculadamente branca, contrastando com a pele rósea, enquanto Lourdinha o aguardava com uma valsa de Tonheca Dantas ao piano.

Batú de Sá preparava o Zé Pereira que abriria alas para o carnaval. Chico Dantas já aguardava os fregueses, cotovelos no balcão de sua “venda”, que cheirava a cereais e perfumes. Jorge Moura já estava no cinema pintando os cartazes do filme do dia, com destaque para os seriados. Nilton Cerqueira, debruçado na janela, registrava os transeuntes mais pitorescos para o comentário jocoso de mais tarde. Seu Chicó Pereira já dobrara a esquina na direção da Sertaneja. Doutor Barretinho se preparava para a penosa travessia até Massangana.

Chico Leopoldino esquentava o motor da camioneta para a entrega de querosene. Os irmãos Araújo programavam os compromissos do dia (Alcides com certeza iria à Capela, para a sua peregrinação diária). Jorginho Barreto atravessava a rua para pedir a benção a Dona Coryntha. Hipólito Fialho acomodava na varanda da casa, como podia, o tamanho, o bigode e o vozeirão. Clóvis Soares aquietava os leões de cerâmica que guarneciam a sua casa e que vez em quando o “estranhavam”.

A rua da Aurora se espreguiçava. Já se sentia o cheiro adocicado do bagaço da cana e as mulheres gritavam o arroz doce e o mugunzá. O som múltiplo do arrastado das vassouras limpando as calçadas. Os varões abriam os portões dos fundos das casas e se apresentavam de pijamas listrados, calças e camisas compridas, pés nos chinelos, investigando as possibilidades do dia, em atenta observação ao céu. E fumavam também grossos a compridos charutos, Suerdick ou de manufatura local, da fábrica de “seu” Poti.

As crianças se fardavam, de calças e saias curtas, para a aula no Barão de Ceará-Mirim, Santa Águeda ou Externato São José.

Dava para ouvir o barulho de pratos e panelas sendo lavados ou postos à mesa. E, apurando bem os ouvidos, distinguia-se aquele ranger nevrálgico do “areado”, o esfregado da areia granulosa nos pratos e panelas. Ou o som das “mãos” de madeira no pilão, triturando café ou milho. Via-se a fumaça dos fogões de lenha, um azul carregado de escuro. O ruído característico do pisoteio dos cavalos nos paralelepípedos da rua. Cachorros virando latas de lixo, como é do seu jeito e natureza.

Um que outro moleque pulando do meio-fio dos canteiros para tirar as bolinhas verdes e as folhas dos pés de fícus. As domésticas trazendo o leite e os pães para o café. O som do chicote nos burros que conduziam a água de consumo trazida do olheiro. (Era tão salobra a água, que de tempos em tempos as chaleiras formavam uma crosta que era retirada às custas de um objeto metálico mais resistente que as facas de cozinha).

(Ocorreu-me que o banho matinal era de cuia – geralmente feita de metade das latas de queijo do reino. Havia uma bucha e uma pedra “pume” (pome) para remover a sujeira mais resistente. Um cheiro forte de creolina testemunhava a limpeza do banheiro. E o papel higiênico semelhava um bloco de notas. Era retangular, com folhas já cortadas, presas com um arame que as segurava e servia de haste para prendê-lo num prego. O tampo sanitário era de madeira. E a descarga era acionada puxando-se um cordão grosso, ou uma corrente fina com uma argola.)

(Veio-me também a lembrança de que à noite todo mundo lavava o rosto, as mãos e os pés – adultos e crianças. Não era muito popular o banho, pois além do desconforto da cuia e da água muito fria, à noite disputávamos o banheiro com “pererecas” e às vezes, sapos enormes.)

Dentro de casa havia uma profusão de aromas no nosso despertar. O pãozinho saído do forno da padaria, café fervendo, goma de mandioca, sabonete Vale quanto pesa, Lifebuoy ou Eucalol, talco Cashemere Bouquet e água de colônia Regina, e também um cheiro acre do cachimbo das domésticas, que fumavam no quintal mas de tão forte, entrava casa adentro. Por mim, encantava-se o sabonete Eucalol, porque trazia estampas coloridas de soldados e de personagens da História do Brasil. E o sabonete Lever, de estrelas de Hollywood.

As duplicatas das estampas eram trocadas em frente ao cinema de Jorge Moura. Também se colecionava carteiras secas de cigarros, era a nossa “moeda” de compra. E tampas de garrafas, papel de “confeitos” e de chocolates. Éramos pobres e felizes imaginosos.

Cantava-se por toda parte os baiões de Luiz Gonzaga, principalmente as domesticas e os botadores d´água. Às vezes minha irmã reproduzia os 78 rotações do rei do baião na vitrola de corda já de manhãzinha, para ajudar a despertar os mais renitentes sonhadores.

As beatas voltavam da missa das cinco e meia, mais contritas e mais leves, prontas para novos pecados. Os caminhões roncavam suas cargas humanas a caminho do trabalho no canavial. Os “mistos” também. Fernando Farias, descia a rua São José, a caminho de Coqueiros. O velho caminhão de Luiz Murat passava em velocidade compatível com a sua idade, rumo à caieira, para o transporte difícil da cal. Chico Horácio exibia a sua buzina de não-sei-quantos baixos. Zé Paiva também passava pela rua da Aurora, o caminhão carregado de lenha.

Vital Correia “montava” no seu possante Land Rover. Zé Félix Varela, conhecido pelo amor aos veículos, já preparava o caminhão para qualquer trabalho ou emergência, na outra extremidade a rua.

Depois, tudo era quase silêncio. Era quando a rua adormecia embalada pela modorra, até onze horas, quando tudo recomeçava. E paralisava novamente, na dormida depois do almoço.

Por isso era a Rua da Aurora. Porque era com o nascer do sol que ela também nascia. Depois, confundia-se com as outras semelhantes e brincava de “tica” e “esconde-esconde” até a noite, quando dormia com o desligar da energia elétrica na velha usina de força e luz.

Um comentário:

FERNANDO DIAS disse...

VALEU JOÃO, NOTA 10, QUE TAL PUBLICAR NA ÍNTEGRA AS CARTAS ANTIGAS DOS LIVROS DE JULUIO SENNA OU NILO PEREIRA?