domingo, 26 de julho de 2020

'LAIGA DEU': APÓS QUARENTENA 'BOOM' DE SEPARAÇÕES SÃO VISTAS POR ESPECIALISTAS

Buscas no Google por “divórcio” aumentam 127%, e especialistas apostam em “boom” de separações pós-quarentena

Dois meses após o início da quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, a psicóloga carioca Renata*, de 36 anos, tomou uma decisão que impactaria ainda mais a vida da família: terminar um casamento de dez anos. A ideia da separação já era antiga, mas a convivência forçada fez emergir a certeza de que era preciso tomar um outro rumo, mesmo quando o mundo todo parece inteiramente perdido.

“Da minha parte, já não estava funcionando, mas a gente ia levando. Ainda mais quando tem criança no meio”, diz ela, mãe de um menino de 4 anos, que agora passa dois dias na casa dela e dois na do pai. “Mas o confinamento faz com que você não consiga fugir de determinadas coisas. É um momento que temos para olhar para nós mesmos, e ficou impossível lutar contra alguns sentimentos.”

O ato que Renata consumou é a aposta de muitos advogados para depois da pandemia. Apesar de os números de divórcios consensuais e litigiosos terem diminuído nos últimos meses (segundo o Tribunal de Justiça do Estado do Rio, em abril, maio e junho de 2019 foram 10.512 processos contra 3.110 no mesmo período deste ano), as buscas por assuntos relacionados ao tema não param de subir à medida que os meses passam.

Segundo dados do Google, as pesquisas pela expressão “como dar entrada no divórcio” cresceram 127% em maio de 2020 se comparadas ao mês anterior. “Há muita gente decidindo não seguir com uma relação a partir da experiência de confinamento. Tenho sido procurada por pessoas que tinham um desejo de separação latente e agora não querem mais adiar”, diz a advogada colaborativa Olivia Fürst. Nessa vertente do Direito em que ela atua, parte-se do princípio que ambas as partes do casal chegarão a um acordo sobre os pontos do divórcio (partilha de bens, responsabilidade dos filhos, etc.) e não levarão as questões a um litígio, ou seja, a uma briga judicial.

Psicóloga atuante na Vara de Família do Tribunal de Justiça do Rio, Glicia Brazil vê a pandemia como o estopim para o que chama de separação psíquica. “É um processo muito íntimo e pode acontecer enquanto ainda se está junto de alguém. Pode-se estar numa relação ao mesmo tempo em que se elabora um divórcio”, diz Glicia. “O período de quarentena acabou sendo a bomba-relógio para algo que estava incipiente em algumas famílias e que, com a proximidade, se tornou difícil de tolerar.”

Essa vontade impossível de ser contida também tomou conta da engenheira carioca Luciana*, de 40 anos, que ia completar dez anos de união estável em junho. O tempo em casa deu a ela e ao companheiro a chance de colocarem as ideias na mesa e chegarem à conclusão de que o relacionamento acabou. Agora, Luciana só espera as aulas da filha, de 5 anos, voltarem, para que o ex saia de casa. “Optamos por ele ficar aqui até que a rotina se reestabeleça”, diz a engenheira. Ela já tem pesquisado sobre como desfazer a união legalmente, mas quer esperar uma reabertura maior da sociedade para seguir esse passo. O mesmo acontece com Renata, que ainda não deu entrada nos papéis de separação.

Os advogados apostam que há muitas pessoas como as duas e que os próximos meses serão de alta na procura por seus serviços. “Acredito que a demanda vai crescer”, diz o advogado Joel Luiz Costa, que já tem feito alguns processos extrajudiciais, em cartório, algo que pode acontecer quando não há litígio ou filhos menores de 18 anos. “Muita gente está esperando a vida normalizar para sair de casa e a situação financeira se reorganizar, porque isso traz gastos com advogado, nova moradia.” A advogada Bruna Rinaldi concorda que haverá esse comportamento e salienta outra questão interessante que já tem visto na prática. “A pandemia, inacreditavelmente, tem forçado as pessoas a fazerem acordos mais rapidamente. Elas temem morosidades. Houve conscientização, uma união até de quem é desunido”, diz Bruna.

* Os nomes verdadeiros foram alterados a pedido das entrevistadas.

O Globo

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