quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

NO TEMPO DOS "BOTIQUIM"

"NO TEMPO DOS BOTIQUIM"

Por: Carlinhos Supla. 

Na vida, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Já dizia Lavoisier. O tempo passa, o tempo voa e os cabelos não continuam o mesmo. Tudo tem seu tempo determinado. E há tempo pra todo propósito de baixo do céu. Eclesiastes- bíblia. O tempo não para. Já cantava Cazuza. Ele passa, sem misericórdia pra todos. É da natureza do tempo. Mas, com o tempo, a história é contada. Por que, é na história, que o próprio tempo é contado. 

Foi-se uma época do tempo da história da nossa padroeira. Nossa senhora da Conceição. Uma festa católica apostólica cearamirinense. Onde se comemora a saudação e gratidão da santa Conceição. Escolhida protetora e defensora da nossa cidade. Segundo nossa crença popular e religiosa. São dez dias de festa na cidade. Com uma agenda cheia nesse período. Novenas, terços, rosários, missas e extensas procissões que carrega milhares de fies, num oceano de pessoas. Uma verdadeira fidelidade a santa padroeira. E assim, segue o tempo da festa todos os anos. 

Mas, é na parte social que a história dessa festa é narrada e contada com seus acontecimentos e fatos. Alguns quase surreal. E ela é contada de AB e DB. (Antes e depois dos botequins). Quem tem um pouco mais de de trinta e cinco, sabe do que eu estou falando. Aos mais jovens, os saudosos botequins, não eram nada mais do que barracas. Feitas de madeiras, bambú e cobertas com palhas de coqueiros. Um estilo artesanal. Todas com as mesmas características. Hoje, com a modernidade, substituídas pelas tendas. Um alto consumo de bebidas e comidas típicas da terra como: picado de carneiro, carne de sol, peixe frito, caranguejo, camarão e caldos diversos. Regado com muita cachaça e cerveja, Brahma, Antártica e Malt 90. Que de malte não tinha nada. Tradicionais da festa, os botequins tem sua história contada no tempo. "No tempo dos botiquim." Figuras folclóricas como: Cabrinha, Vida torta e João doido, frequentadores fiéis das barracas de palhas. Homens errantes, mas, que ficou no tempo. "No tempo dos botiquim." Gente de todas as classes da cidade frequentavam as barracas nesse período. Era uma tradição. 

Enquanto seus frequentadores saboreavam petiscos e tira gostos com muita cerveja e cachaça, ao mesmo tempo apreciavam a vista. O parquinho tradicional do dia 8. Do inesquecível e saudoso Kinô. "O parque de Kinô." Como era mais conhecido. Com seus barquinhos de adultos e crianças. E a famosa Onda de Kinô. Era um brinquedo onde uma grande roda girava ondulando, cheia de gente, adultos e crianças. Os gritos eram inevitáveis. Proporcional a alegria e prazer que o brinquedo proporcionava. Tudo isso ao som de "A ciganinha" (você é a ciganinha dona do meu coração...) e Feiticeira de Carlos Alexandre. Só quem "foi na onda de Kinô" sabe esse sentimento. Mas, o tempo passou. Os botequins não existem mais. Nem Kinô está entre nós. Nem seus barquinhos nem sua famosa onda. A onda girou. Teve seu tempo. "No tempo dos botiquim."

O dia 8, como era chamada e comentada, era uma festa única. Uma das maiores do estado. Gente de toda parte, figuras ilustres da política local estadual e nacional, vinham saudar Conceição. Esperada o ano inteiro pelos fiéis religiosos e apreciadores fiéis botequeiros, sua aproximação era detalhada minuciosamente por todos cearamirinenses. Pelo lado religioso e pela parte social, com parques de diversão e festa baile no clube da cidade. Todos saiam impecavelmente bem trajados. Com suas roupas do dia 8, novinhas. Fazendo das passarelas da festa, verdadeiros desfiles de moda. As costureiras da cidade agradeciam muito a Conceição.

A banda de música começava com a alvorada pela manhã e terminava a noite após a grande missa campal, regida pelo também inesquecível e saudoso "pade Rui." Padre Rui Miranda. 

E finalmente o seu encerramento. Com o grande leilão de galinhas, carneiros, bodes e garrotes que acontecia na "mãe" de todos os botequins. "A barraca do Pade."

Muitas atrações na última noite. E tudo narrado pelo leiloeiro. Enquanto a grande roda gigante girava sem parar. A roda do tempo girou. E assim foi-se uma época que não volta mais. A história foi contada e teve seu tempo. 

"No tempo dos botiquim."

Tenho dito.

Um comentário:

Anônimo disse...

E pensar que vevi tudo isso, me enche de nostalgia.